Seriedade, o palhaço e o sábio

O palhaço está sempre num frenesi barato, ele não sabe a hora de parar, ele não tem freios, está sempre com seu nariz vermelho e redondo, rindo de tudo e de todos. O palhaço é o destruidor da seriedade, é o sádico carismático, é aquele que nunca leva nada a sério, que sempre leva tudo de maneira leviana, ele tira o valor da tradição, independente se a mesma for boa. Ele está sempre fazendo as suas algazarras, transformando tudo em algo sem valor, é um niilista, uma pessoa doente, que não leva alegria, mas a um estado constante de agitação indolente, infantilóide, ele é o destruidor da infancia e da maturidade, nunca é maduro, nunca sabe ser sábio, nunca sabe modular a hora de ser engraçado daquela de fechar a boca.

Já o sábio… em seu estado natural, é muito sério, com raras exceções, o sábio sempre está em busca da resolução dos problemas. é causal, sua seriedade se relaciona com a sua concentração, com a sua empatia, com a sua necessidade de harmonizar, de ser o filósofo natural. O sábio é bem humorado e algumas vezes não sabe modular o humor de maneira apropriada, mas ao longo de sua vida, se tornará mais atento a isso. O humor não tem moral, mesmo em seu conceito, nenhuma palavra tem um valor moral unitário ou unilateral. No entanto, o humor, que pode ser usado para produzir sorrisos sinceros, também pode e será usado de maneira irresponsável, onde que se busca pelo engraçado, por meio da destruição de reputações, a humilhação, o sadismo. O sábio legítimo, este ser muito raro, vai se tornando mais em mais empático, dando valor a tudo aquilo que expressa vida, que é, tal como os monges que evitam pisar em cima de filas indianas de formigas operárias enquanto varrem o chão de mosteiros. Este aumento de consciencia, de estar, se entender e entender o ambiente, de ver valor em tudo, pode ser muito pesado ao sábio, mas também será um aprendizado. O sábio, terminará caminhando para se tornar um inimigo do humor, porque o humorista, o palhaço, sempre relativiza, sempre rebaixa, ele tem um instinto poderoso de rebaixar qualquer grandeza, de reduzir a vida a uma piada de mau gosto, suas intenções até que podem ser as melhores (muitas vezes, não serão), mas a ridicularização da seriedade, tende a ter o efeito contrário, porque ao invés de reduzir, amassar, massagear o significado da vida e sua dúvida, do existir, do interagir, do ser, o humorista acabará por chegar ao mesmo penhasco existencialista, que tanto tenta escapar, porque todos nós sempre acabamos chegando a este penhasco, cedo ou tarde.
O poço de piche, o buraco negro da existencia, a morte, que o palhaço debocha, ao faze-lo com a vida, o sábio se tornará consciente dela, desde a uma idade muito precoce e alguns não terão estrutura, fibra emocional o suficiente para lidar com isso, com esta nova dimensão.
A dimensão da fragilidade e do amor a vida, é onde vive a melancolia, é o se despedir de cada momento único, como se nunca mais o visse novamente. Não temos a resposta quanto a isso, a única certeza que temos é a de que não temos certeza e os mais racionais, sabem que a probabilidade do fatalismo humano, de ser demasiado humano, de ser demasiado desperto, é o que parece ser o mais provável de ser verdade, mas claro, uma conta matemática de probabilidade em relação aquilo que não sabemos, não fazemos a mínima, a menor das ideias, ainda que possamos sonhar com elas.
O sábio está sempre em intensa interação com o seu próprio ser e como consequencia, com o meio em que está, com tudo aquilo que toca seus olhos precisos, seu passado não foi descartado, é ativo e utilizado com frequencia. Ele não vive o tempo, o vento de sua estadia enquanto energia enclausurada, sua vivencia é suspensa, presente, passado e futuro são um só.
O humor constante, muitas vezes revoltante, insensível do palhaço, expressa o seu estilo de ser, de viver, que está baseado fundamentalmente no presente. Sua capacidade apurada de destruir a vida com suas observações engraçadas, de faze-la menor, menos importante, é o produto de sua mente que despreza o passado e que reflete pouco sobre o futuro mais superlativo, mais extenso, o seu futuro é para daqui a pouco. Aquele que se consome especialmente pelo presente, é um consumidor natural, um materialista. O palhaço ri da falta de energia, de vida, que geralmente se encontra presente naquele que tem um equilíbrio natural de modular suas forças e viver mais ou ao menos, sem grandes dúvidas pesadas, sem encará-las. Mas ele é tal como o gado humano que tanto despreza, o consumidor materialista do presente, que ri do passado e despreza o futuro, o palhaço também é alguém no meio da multidão, o santo do deboche, sempre exagerado, sempre sem freios, sempre pisando nos outros, sempre agindo como um sábio, como se nao houvesse o amanhã, mas ao invés de abraçar a razão empática ou sabedoria, o palhaço abraça a revolta alegre e dispara como uma arma sem controle, tudo aquilo que lhe faz seco e lamuriante por dentro.
Rir, nem sempre será o melhor remédio e a sabedoria, o factor g da vida, se faz extremamente apropriada para modular o momento, a hora, o cenário e as pessoas certas para debochar da seriedade, que é a realidade por si mesma.
Alguns dizem que a função satírica do bobo da corte é a de desafiar a autoridade. Mas pra mim, eles estão apenas entretendo os déspotas de sempre. Rindo do sofrimento, da tragédia, uma beleza feia, com cores vulgares, estéril e de mau gosto.
A arte não foi feita pra isso, e eu não concordo que só funciona para expressar o sofrimento humano e existencial, em geral. A arte expressa aquilo que há, e talvez também expresse uma certa necessidade de variar, da alegria ao lamento, da dor e do prazer… mas que estes cavalos brancos e selvagens, comecem a cavalgar por ambientes mais serenos e mais enriquecedores, porque o amor não é tolo e brega.
Se precisamos de todas as emoções e de todos os sentires para expressarmos a arte, então que as mesmas sejam suspensas enquanto sensação literal, que ainda seja real, mas que não termine em um final triste, que ninguém gosta, de fato.
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