Qi e fator g provam a validade empírica da teoria das múltiplas inteligencias

Os fetichistas de qi gostam de dizer que a teoria das múltiplas inteligencias não tem sustentação empírica e (ab)usam do fator g como prova da improbabilidade da existencia da diversidade cognitiva ( múltiplas inteligencias). Mas como os fetichistas de qi sabem muito menos sobre inteligencia do que aquilo que acreditam saber, então não devemos dar ouvidos a esses neocrentes.

Me parece evidente, de acordo com a teoria da evolução de Darwin, que se todo  traço ‘ou’ fenótipo varie dentro de uma espécie, então o mesmo acontecerá com a inteligencia (abarcando a criatividade e ainda, me vejo debilmente incapaz de substituir o termo inteligencia por sabedoria…) que também é ”um traço” evidentemente. No entanto, os fetichistas de qi só conseguem ver o seu lado. Eles se utilizam da ciencia cognitiva como uma maneira de expressar seus sentimentos pessoais equivocados, de suposta superioridade intelectual unilateral. Portanto, ainda que se baseie em ciencia real (e unilateral, como é o costume), a psicologia cognitiva e a psicometria estão tomadas por certezas retidas de um conjunto muito limitado de percepções de natureza estatística que substituíram a realidade.

A ideia de que o fator g seja uma prova que invalide a teoria da diversidade cognitiva qualitativa ou múltiplas inteligencias, não se sustenta, porque não existe qualquer regra literal que impossibilite que ambos possam coexistir dentro do reino da psicologia. Parte-se da ideia de que todo fator g seja individualmente homogeneo e que portanto, todas as nossas atividades cognitivas (intelectuais, corporal-reativas e técnico-cognitivas) estarão sob o seu domínio. Mas é muito evidente que as pessoas sejam individualmente diversas quanto as suas habilidades e também em relação as suas fraquezas. Eu posso ser um exímio motorista e não saber nada de geografia e nem ter qualquer capacidade de expandir este conhecimento além do básico que é ensinado na escola (vou explicar em um dos próximos textos através da metáfora dos elásticos o porque desta situação).

O que é fator g exatamente…

Ou melhor, qual das habilidades ”humanas” que estariam mais carregadas de fator g**

Peguei este trecho do texto de Paul Cooijmans

”G é a soma da capacidade evolutiva.

Capacidades tendem a correlacionar-se positivamente à medida que são naturalmente selecionados pelo mesmo critério; sobrevivência.”

Algo de errado está cheirando em relação ao conceito de G, se este se baseia basicamente na capacidade evolutiva de sobrevivencia.

Cooijmans complementa o meu pensamento aqui por meio desta tabela.

Cor Ability
.9 Pattern recognition
.8 Reasoning
.7 Verbal, Numerical
.6 Spatial
.5 Memory, Mental tempo, Perception, Emotional stability, Concentration
.4 Dexterity, Sense of gravity, Kinesthetic, Sense of time, Pulchritude, Spiritual
.3 Athletic (speed and strength)
.2 Athletic (stamina)
.1 Many specific abilities

O reconhecimento de padrões é a habilidade ”humana” que está mais carregada em G.

Uma de minhas críticas mais profundas aos testes cognitivos se dá justamente pelo fato de medir algo que não é objetivamente real, literal. Testes de qi medem as habilidades que são usadas no sistema escolar, memorização, vocabulário, capacidade de raciocínio lógico-matemático. Aliás, eles são derivados diretamente do sistema escolar. Mas a escola não é a realidade, é parte dela e expressa parte daquilo que entendemos e definimos como inteligencia.

A capacidade evolutiva de sobrevivencia não se limita a acumular uma grande soma de dinheiro, mas a partir da objetividade, ou seja, pela mitigação máxima de perigos iminentes. Através da associação de variáveis pré-estabelecidas que são retidas de percepções em relação ao ambiente em que vivemos, é que poderemos construir um conjunto de ideias e ações derivativas que possibilitem a nossa sobrevivencia. Eh melhor evitar a guerra do que lutar. Quando há luta, os mais fortes e os mais ágeis vencerão e não os mais inteligentes.

Ambientes complexos exigem uma maior gama de percepções úteis, complexas e objetivas. Voce pode desarmar inimigos ao invés de se expor a combates diretos de alta periculosidade.

O reconhecimento de padrões por observação e captura de percepções se relaciona com qualquer atividade humana.

Geralmente, as atividades de natureza técnica se basearão em um horizonte associativo de pouco potencial expansivo enquanto que as atividades de natureza intelectual e científica terão um amplo horizonte de expansão associativa, ainda que esta dependa da destreza criativa daqueles que estejam trabalhando dentro desses ramos laborais.

Epistasia cognitiva e qi

A maioria da população apresentará um perfil cognitivo mais simétrico do que assimétrico. Uma das prováveis razões para esta confusão entre fator g e diversidade cognitiva, parece ter se originado por causa da percepção e conclusão precipitadas a partir deste predomínio de tipos simétricos. Mas mesmo que pessoas como eu, que são muito boas em algumas tarefas ”escolásticas” e muito ruim em outras, como matemática, sejam uma pequena minoria, isso não significa que não existirão diferenças marcantes entre os menos outliers.

Apenas como exemplo, sabemos que aqueles que estudam nas humanidades tendem a serem mais verbalmente inteligentes ou menos matematicamente inteligentes do que aqueles que estudam nas ciencias exatas, em qualquer universidade perto de voce. Isso não é uma questão de escolha, visto que desde muito cedo, já demonstramos essas diferenças individuais de capacidade. Claro que a maioria destes estudantes, tenderão a ser um pouco mais inteligentes em capacidades verbais ou matemáticas (ou espaciais), apresentando uma amplitude relativamente pequena entre suas forças e suas fraquezas cognitivas (ao contrário de mim que pareço ter capacidades verbais avançadas e não restam dúvidas, de ser muito fraco em matemática aplicada, alguma espécie de discalculia). Portanto, o professor ”com” qi verbal 120, pode ter um qi matemático de 100, na média, enquanto que um verdadeiro outlier cognitivo (e potencial superdotado) pode ser brilhante na parte verbal e pontuar em média 160 (partindo da ideia de que os testes de qi sejam bons para medir parte destes atributos técnicos) e ir muito mal em matemática, bem abaixo da média. As diferenças individuais entre os neurotípicos deve variar de no máximo 30 pontos, enquanto que para os tipos ”neuroincomuns” ou ”neurodiversos”, esta amplitude tenderá a ser acima de 30 pontos, tal como o indivíduo do exemplo que é verbalmente superdotado e ao mesmo tempo discalculico.

O cérebro ”não tem buraco”. Portanto, se está faltando algo em alguma parte, ”poderá” estar excedendo em outra parte. Quem é muito inteligente em uma capacidade e estúpido em outra capacidade, expressa um claro desequilíbrio de habilidades, que o fator g, tal como tem sido compreendido, não é capaz de explicar, se aquele que é bom em uma tarefa, tenderia a ser igualmente bom em todas as outras.

O fator g não é uma regra, é uma construção abstrata, que é compreendida a partir da ótica ou perspectiva escolástica. Eh uma acumulação de tarefas cognitivas onde ve-se com clareza que a capacidade para capturar padrões é a que está mais carregada, como eu tenho falado muitas vezes aqui, a verdadeira inteligencia é a capacidade perceptiva.

E mais, talvez o fator g em seu estado mais puro e ‘desenvolvido”, possa ser entendido também como a manifestação psicométrica da sabedoria.

Portanto, apenas com estes exemplos, nós já podemos constatar que indubitavelmente existe uma diversidade cognitiva entre os seres humanos, tanto em termos quantitativos, quanto em termos qualitativos, apesar da aparencia de uniformidade ou predominancia de tipos simétricos de perfis cognitivos. E tanto os testes de qi quanto a teoria do fator g, não são provas da invalidade da teoria das múltiplas inteligencias, pelo contrário, pois são complementos instrumentais e teóricos sobre a mesma. E ainda pincelei sobre a possibilidade de desenvolver um pouco mais sobre a capacidade mais carregada em g, dos seres humanos mas também de todos os animais não-humanos, a capacidade de encontrar padrões. E também a especulação sobre a possibilidade de uso desta habilidade hierarquicamente superior como parametro de avaliação para a sabedoria, ainda que o uso de alguns de meus conceitos moral-cognitivos também possa e deva ser explorado conjuntamente.

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