Tdah** Autismo não-especificado** Ciclotimia** Por que a psiquiatria a muito já se tornou obsoleta*

Com que ”roupa” que eu vou…

Entre 2009 e 2010, me tornei consciente da palavra ”autismo”. A partir disso, eu cheguei ao termo mais rebuscado e científico, ”síndrome de Asperger”. Muitas das características, definidas como sintomas, desta condição se emparelharam consistentemente com as minhas tendencias comportamentais e cognitivas. No entanto, depois de um tempo de encantamento e vontade de estudar e aprender sobre a assunto, eu percebi que não era assim ”tããão autista ou aspie” como eu imaginava ( mas o interesse permaneceu). Ainda que, timidez, relativa dificuldade de lidar com as pessoas e tendencia para motivação intrínseca predominante em interesses intelectuais ou não-sociais específicos, fossem características marcantes de minha personalidade, eu não poderia me considerar como um autista, porque a intensidade e a dificuldade de interação social são ainda maiores para quem de fato, se encontra no número certo para vestir a roupa ou rótulo de autista.

Atualmente, penso em ”autismo não-especificado” ou ”de estar” dentro do espectro maior de ”transtorno invasivo do desenvolvimento”, mas como eu sou muito feliz em ser eu mesmo, não consigo aceitar com sorriso no rosto e docilidade que tenha qualquer tipo de problema cognitivo ou que seja cognitivamente inferior a maior parte das pessoas que não estão no número certo para serem psiquiatricamente rotuladas.

Desde quando fui diagnosticado como ”maníaco-depressivo” durante a minha adolescencia, diagnóstico que rejeitei solenemente, deixei de fazer qualquer relação entre esta personalidade extrema e meu comportamento. Então, durante a onda de ”auto-diagnósticos” em que peguei nesses últimos anos de especialização, finalmente cheguei a conclusão de que poderia ser tal como um ciclotímico, ou seja, que ou aquele que exibe uma manifestação moderada do transtorno bipolar e validaria parcialmente a observação da psicóloga que me diagnosticou com este trans-torno durante a minha adolescencia. No entanto, eu não consegui me ver como uma pessoa psiquiatricamente defasada e que precisa de compensações farmacológicas para que possa funcionar ”idealmente” dentro da sociedade em que estou.

Eu sou relativamente instável em termos emocionais mas não é nada que possa ser considerado como um tormento constante, visto que o que define a manifestação da personalidade extrema (e qualquer outro tipo de personalidade), são justamente a sua constancia e a sua intensidade. Na verdade, depois de mergulhar e me imaginar ”mentalmente perturbado”, eu acabei percebendo que muitas das pessoas que estão ao meu redor é que parecem ser perturbadas e todas elas, se encaixam na categoria de ”normal” ou ”normatizado-padrão”. Eu sou até chato ”as vezes”, muito calmo exteriormente, monomaníaco, que gosta de regras para poder sobreviver no cotidiano (porque se deixar eu fico a devanear sem limites), com uma energia extra mas que não é lá nada muito extravagante. Talvez existam milhões de pessoas iguais a mim que neste exato momento, estejam tentando entender porque até agora não conseguiram ”serem bem sucedidas” em seus respectivos ambientes sócio-cultural-economicos. E talvez, essas pessoas sejam exatamente como a mim, uma pessoa que na verdade é até normal demais, justamente por primar pela naturalidade comportamental, combinada com altas doses de moralidade empática (diferente da moralidade cultural ou moralidade subjetiva) e de racionalidade. E sabemos que este primor pela qualidade cognitivo-comportamental é uma raridade entre aqueles que são julgados como normais. As pessoas ”normais” são enganadas por seus mestres mentais quanto a excepcionalidade da vida e da experiencia humana. Não, é muito menos do que imaginamos. E mesmo se estivesse errado, séculos de conflitos estúpidos, tem mostrado que pensar com o cérebro ”ou com o coração”, são medidas extremas com os mesmos resultados, estupidez em escala industrial.

Depois de me ambientar melhor em relação ao meu lado amigável, distraído e sonhador, acabei por me ver dentro da roupa TDAH, as tendencias criativas, inconformistas, a vontade de dizer aquilo que pensa. Bem, mas o fato de compartilhar muitas características e portanto de ter boa pontuação no quesito ”constancia comportamental”, ainda não significará que eu estarei apto para ser diagnosticado como tal, visto que no quesito ”intensidade”, eu não sou, definitivamente, alguém que ”necessite” de remédios para parar quieto no lugar ou ‘prestar atenção’. Se por um lado, eu fiquei feliz por não ter a possibilidade ser marcado como gado de ”baixa qualidade” (contextual), por outro lado, eu fiquei triste, porque além de não ter encontrado até então, nenhuma categoria da qual pudesse vestir, eu também me vi em uma situação de não estar contextualmente adaptado as demandas tecnocráticas da sociedade em que vivo e que isso tem um enorme efeito em meu potencial de adaptabilidade laboral-cognitiva. Se eu não posso adentrar em nenhuma categoria de ”especial” ou ”com necessidades especiais evidentes”, então qualquer tentativa de esclarecer quanto a minha relativa singularidade cognitiva, será entendida como desculpa para o meu desleixo de não tentar ser como o sistema gostaria que fosse.

Também cheguei a pensar sobre a esquizotípia, uma manifestação branda da esquizofrenia, mas todos os meus auto diagnósticos foram baseados em uma clara tentativa de auto-depreciação, que na minha cabeça estranha, tem significado o exato oposto, visto que, se eu posso ou não quero competir por meio de regras subjetivas, com os neurotípicos, então talvez pudesse ser visto como uma aberração de qualidade tal como hoje em dia, faz a mídia satanista ao pintar pessoas que de fato apresentam personalidades extremas em conluio com talentos raros.

Duas conclusões sobre a minha auto investigação psicológica, o meu narcisismo de se sentir especial, mesmo que esta condição especial se baseie em proto-desequilíbrio organico do sistema mente-corpo e a minha vontade de buscar uma explicação aquém daquela que seria a mais possível, a de ser um tipo poético-atávico de superdotado.

Eu tenho uma imaginação poderosa e constante, mas isso não quer indicar esquizotípia, necessariamente, um tipo de julgamento muito subjetivo.

Eu tenho um certo desequilíbrio emocional, mas isso não quer indicar ciclotímia, visto que muitas ou na maior parte das vezes, o meu destemperamento se dá por razões racionalmente complexas, que só eu consigo entender (e na verdade, convenhamos que nem é assim tão difícil para os outros entenderem, o problema é que as pessoas adoram explicações complexas para a simplicidade da naturalidade filosófica). Eu sou como o rabugento empático que não pode aceitar com um sorriso largo no rosto o mundo de atropelos e primitivismo do qual estou mergulhado.

Eu tenho uma certa energia extra e sou meio impulsivo, que nas altas rodas intelectuais, chamam de ”abertura para experiencia”, mas não quer indicar que eu tenha qualquer tipo de descontrole do qual eu não saiba como ou porque se dá, visto que meu autoconhecimento já atingiu pleno desenvolvimento a ponto de sabe-lo ou ao menos de dar-lhe um significado não-psiquiátrico a certas particularidades da minha personalidade ou alma.

Eu não estou sempre distraído ou na maioria das vezes em que estou em proto-devaneio e ainda que possa ser submergido pela distração, o meu controle cognitivo (autoconhecimento) será bom o suficiente para que possa acessar meu estado de alerta para evitá-la. Sabendo que tenho propensão a distração, devaneada por pensamentos ou não, redobro minha atenção, porque a atenção multi-integrada e mundana não vem até mim com naturalidade. Mas a minha auto-vigília sim. O que alguns poderiam determinar como sendo uma dificuldade de atenção, na verdade, pode ser entendido como hiper foco em assuntos pessoais ou que estão intrinsecamente motivados, em outras palavras, eu atendo o chamado da chama que me faz ‘existir’, eu vivo a mim mesmo sem dar grande importancia a escravização dissociativa que o sistema quer que voce faça. Que despreze a sua integridade existencial e que viva como um escravo para enriquecer gente mesquinha, tola e completamente retardada.

Talvez, o que me difira de alguém que aceita o seu diagnóstico psiquiátrico sem pestanejar, seja porque eu tenha ”escolhido” pelo autoconhecimento, sem ter tido a perigosa necessidade de me entregar de bandeja a um ”psico-especialista” que o máximo que poderia fazer, especialmente se fosse um profissional mediano, seria de categorizar minha individualidade em algum tipo de trans-torno dos ditames tecnocráticos e culturais modernos e de denominá-la como excentricidade.

Cultura da personalidade extrema e dar significado racional-criativo-alegórico a percepções, a diferença entre ‘genios’ e ‘loucos’

O que difere um indivíduo que é definitivamente lunático ( o tipo evidente de lunático, porque também temos a grande maioria da humanidade dentro da categoria de tipo não-evidente de lunático, mascarado pela normatividade coletiva), um indivíduo de inteligencia(s) normal (is) provido de uma personalidade extrema, em relação aquele que é definitivamente um genio filosófico (o tipo de excepcional com o mais alto nível de autoconhecimento)**

Na minha opinião,  será a qualidade de significados racional-alegóricos que darão a si mesmos. E para isso, a inteligencia, o controle cognitivo ou autoconhecimento e a criatividade serão fundamentais para separá-los.

Quando o psiquiatra diz ao lunático que ele é lunático, ele tenderá a discordar totalmente do psico-especialista  porque em seu mundo completamente distorcido, a criatividade inconsciente e perigosa estará totalmente descontrolada, se nossa expressão cultural-comportamental exterior nada mais seria do que o espelho de nossa mente em conluio com o ambiente em que estamos inseridos, a cultura neurológica.

Quando o psiquiatra diz ao seu típico paciente (que não é um típico lunático evidente, em outras palavras, é uma pessoa com inteligencia e percepção normais, que no entanto, estará vestido com a roupa existencialista de uma personalidade extrema) que é um lunático, haverão grandes chances de concordancia dele em relação ao diagnóstico final do psico-especialista, afinal de contas, este tipo tem uma percepção normal (e auto percepção principalmente) do mundo e apenas gostaria de ser como todo mundo. Ao invés de ver um desafio encantador, o típico paciente ve sua condição existencialista com pesar, dor (E talvez, para os casos mais extremos, eles estejam corretos em relação a isso, menos quanto ao déficit de autoconhecimento).

Quando o psiquiatria diz ao genio filosófico que ele é um lunático, especialmente se este genio for provido de grande orgulho ou auto estima complexa, haverão grandes chances para a discordancia, mas que ao contrário do lunático evidente, que produz alegorias distorcidas da realidade, de uma tentativa equivocada de auto análise, esta será embasada em uma racionalidade alegórica, dar poesia e beleza a uma experimentação existencial profundamente poderosa, com seus altos e baixos, com suas flores e com seus espinhos. Onde existe um jardim de flores e espinhos, o paciente típico não verá lindas rosas vermelhas, mas um mundo monocromático, preto e branco e dará grande enfase aos espinhos, uma vida de feridas. O lunático evidente confundirá espinhos com as rosas e imaginará o mundo mediante um quadro abstrato, que mais parecerá um rabisco com desenhos não-terminados. Em compensação o genio filosófico verá não apenas as perspectivas de seus primos existencialistas, o mundo de pessimismo, de lamentos e de ”auto achismos” (e se eu fosse ”normal”…), o limbo do ”sacrifício de Andromeda”, o mundo de distorções e desdobramentos de retas, da realidade, do lunático evidente e todo o belo jardim e sua complexidade de sensações. O psiquiatra não pode convencer o genio filosófico de sua loucura contextual, porque enquanto que o psiquiatra pinta o mundo de suas vítimas tal como um limbo de tortura, a mesma manipulação não terá efeito na mente poderosa e auto-consciente deste espécime. Os mais vulneráveis podem ser convencidos de que suas vidas (especialmente a partir da ótica da moralidade objetiva) são fundamentalmente marcadas por espinhos. Imaginemo-los em suas peles, voce que não se conhece, percebe que há um atrito maior entre sua existencia e a dos demais e a partir disso, busca alguém para ajudá-lo a se conhecer e a ver o que está errado com voce. O paciente entrega a sua mente para um psico-especialista que a destroçará ao mostrar-lhe que apenas com medidas artificiais e superficiais que poderá ”se encontrar”. O paciente não é importante, o importante é a possibilidade de faze-lo se conformar dentro da normalidade. Isto não está certo, mas muitos pacientes desejarão apenas isto.

Ainda que seja complexo por demasia reduzir totalmente esta realidade específica, ou seja, o mundo de interações entre psiquiatras, psicólogos e seus pacientes, a uma relação de opressão, pode-se dizer que, pessoas muito vulneráveis sejam tratadas industrialmente, tal como se fossem categorias de produtos ou dos remédios que tomam.

Cada caso é um caso, não para um psiquiatra com muitos pacientes para tentar ajudar.

Talvez o principal erro da psiquiatria seja justamente a tentativa de forçar seus pacientes a vestirem roupas ”de normalidade”. Qualquer pessoa sem potencial inato ao autoconhecimento, que for destituída de sua personalidade e tratada como ”alguém que poderá se adequar a sociedade”, caminhará para alimentar a sua própria doença de alma, ao invés de adaptar as suas dimensões mais aberrantes a roupas mais confortáveis.

A superficialidade da normatividade, na minha opinião, é o mais evidente erro que a psiquiatria está a cometer desde quando foi sistematicamente fundada.

Talvez esta cultura de autoconhecimento, possa ser ensinada para as pessoas…

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2 responses to “Tdah** Autismo não-especificado** Ciclotimia** Por que a psiquiatria a muito já se tornou obsoleta*”

  1. Davi says :

    Ótimo texto.

    Me encontro refletindo-me numa situação parecida com a sua, ‘experimentando’ “roupas”, mas sem patologizar-me. Algo bem natural que vai de encontro com as supostas doenças.

    “Talvez essa cultura de autoconhecimento pode ser ensinado as pessoas…”

    está pensando em um texto sobre né?! 😉

    • santoculto says :

      Bem, eu já fiz dois textos sobre isso, mas nunca é demais produzir novos com a mesma temática porque é um assunto pouco abordado, da maneira como eu faço. Recentemente, hoje pra ser sincero,rsrs, estava lendo justamente sobre o tema, mais necessariamente, em relação a educação. Falava-se sobre autoconhecimento como um substituto plausível da ”moderna educação”. No entanto, caiu-se na mesma areia movediça humanista, a ideia de que apenas a educação já possa reprogramar TODA população enquanto que sabemos que isso não é possível de ser e que mesmo que aparente sucesso na empreitada, será apenas aa superfície.

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