Melancolia, o desaparecimento deste belo conceito dentro da psicologia e sua importância como componente da personalidade do gênio

O conceito de melancolia, tão popular dentro da psicologia de outrora, praticamente desapareceu desde a segunda metade do século XX.

 

Apesar do mundo moderno e prático em que vivemos, a mente do populacho nunca esteve tão primitiva. Mais do que nunca, vivemos em sociedades onde a maioria das pessoas são incapazes de pensar em ”múltiplas perspectivas” (e isso é uma constatação). Como resultado, se você não está feliz, você só pode estar triste e se você estiver muito triste, então é provável que esteja com DEPRESSÃO.

Depressão é um estado extremo de humor, onde se atingem níveis integrados de sensações que serão tão exorbitantes, que produzirão a incapacitação de uma vida cotidiana temporalmente normal. É como se cada detalhe da mobília de sua casa começasse a te incomodar, quando a sua percepção se reduz àquilo que está ao alcance de suas mãos. Não é a toa que quando as pessoas estão em estado de euforia ou alegria, desenvolvam uma tendência para  se tornarem mais EXPANSIVAS.

No entanto, eu posso estar triste ou reflexivamente pensativo, mas não ao ponto de entrar em um estado de extremo desânimo e descontentamento OU depressão. Quando eu não estou nem efusivo, nem depressivo, eu posso estar ou ser melancólico.

A melancolia simplesmente desapareceu da psicologia e da psiquiatria a partir da segunda metade do século XX. Por um lado isso é bom porque foi menos um fenótipo neuro-minoritário a ser unilateralmente patologizado pelos paquidermes da psicologia (nem todos os que trabalham nesta área são assim, É CLARO). Por outro lado é ruim, porque ao se extinguir a existência de uma condição comportamental, passa-se a desprezar qualquer intenção de estudá-la com mais afinco, afinal, como se poderia estudar ”aquilo que não existe”??

Mas a melancolia existe e é muito mais importante para entendermos a genialidade, a criatividade bem como em relação à pressupostos filosóficos da psique humana, do que os modernos psicólogos poderiam supor. Uma grande proporção de gênios criativos historicamente reconhecidos do passado, foram de melancólicos. Na verdade, parece que todo aquele com grande capacidade cognitiva e grande caráter, precisa ter alguma dose de melancolia. A relação entre esta condição e a excepcionalidade humana é muito alta. A melancolia, quando é muito alimentada, pode causar a depressão, mas nem todo melancólico se tornará deprimido.

 

Melancolia é um estado ou uma condição??

 

A diferença entre um estado emocional e uma condição (sindrômica) é igual à diferença entre comportamento e personalidade, que por sua vez é a mesma diferença que existe entre tempo e clima. (Será que eu preciso explicar mais alguma coisa??.)

A melancolia pode se manifestar em qualquer ser humano, mas existem alguns que são muito mais propensos a vivenciá-la do que outros. Portanto, o grau de predisposição da melancolia, pode variar entre 5% e 95% de probabilidade.

Para algumas pessoas, a melancolia será parte original de suas respectivas personalidades. Para outras pessoas, a melancolia poderá se manifestar mais tarde, provocada por fatores ambientais (circunstanciais) significativos, como a morte de entes ou amigos queridos, crise econômica, ”fracasso” profissional, stress ou até mesmo por causa de contaminação por patógenos.

A personalidade é composta por predisposições originais, das quais estamos fortemente propensos a vivenciar e por predisposições menos fortes, onde que certos gatilhos ambientais poderão ter ou não, algum efeito em nosso comportamento.

 

Melancolia e genialidade

 

Como eu já relatei superficialmente acima, a relação entre melancolia e genialidade tende a ser significativa, especialmente dentro dos ramos da filosofia, da literatura e das artes. Mas não é rara em ”homens de gênio” da ciência. A melancolia, dependendo da personalidade, pode funcionar como um incentivo para a produção criativa, ter um efeito neutro, ser negativa, isto é, deprimir o ímpeto para auto-motivação e produção intelectual, ou pode ser complementar.

No entanto, eu acredito que em todo perfil cognitivo excepcional, principalmente se for aquele que, independente das combinações de ”traços comportamentais”, tenderá a se basear ou a se projetar na cooperação de grupo (a função arquetípica do gênio), a melancolia se encontrará presente, porque a mesma pode ser definida como uma forma de profunda reflexão, que é o resultado de grande percepção holística dos fenômenos que compõe a existência ou ”experiência da vida”.

A manifestação da melancolia tende a se dar como uma resposta ao incremento da autoconsciência. A maior percepção da fenomenologia  da vida que se consiste o ato de viver, metaforicamente falando, reduz a gravidade e torna nossa percepção mais ”pesada”, porque ao contrário do ser humano social naturalmente alienado (o alienista por excelência), o melancólico tenderá a desenvolver uma profunda percepção de tudo, de todos e do todo. E quanto maior for a percepção, mais numerosas serão as dúvidas, maior será a angústia.

Outras pessoas tenderão a buscar por explicações ”mais científicas” para esta condição, como a lateralização anômala que poderá provocar uma organização diferente do cérebro, como maior conexão entre os hemisférios. Os mais melancólicos podem ser mais velozes para capturar problemas no meio em que vivem. Os solucionadores de problemas serão mais melancólicos, mais emocionalmente reativos do que a média, porque serão mais rápidos na captura de problemas ou desarmonias no ambiente e isso será intensificado pela incapacidade da maior parte das pessoas para entender a mensagem do ”solucionador de problemas” e de agirem para solucionar as desarmonias encontradas.

As duas explicações estão corretas mediante as múltiplas perspectivas, visto que uma explicação filosófica retida pela lógica intuitiva (e não por devaneios ou por correlações sofisticadas porém irreais) funciona muito bem como um complemento perceptivo em relação à perspectiva da neurociência.

A relação entre melancolia e estupidez é consideravelmente negativa, porque enquanto que o estúpido é um ser irreflexivo e potencialmente irreflexível (isto é, que dificilmente desenvolverá qualquer atividade mental reflexiva auto-motivada e ou de longo prazo), o melancólico será o exato oposto. Mais do que a própria inteligência, visto que é totalmente possível encontrarmos os famosos ”inteligentes-estúpidos” ou ”idiotas úteis”.

 

Melancolia, sabedoria e inteligência

 

Nos mais altos níveis de inteligência, a melancolia será uma tendência bastante comum, mas é na sabedoria, que se encontra em uma grandeza maior do que a inteligência, que a melancolia terá um papel bastante decisivo. Ao contrário do que diz a psicologia ”positiva”, com sua costumeira patologização de muitos supostos defeitos (potencialmente subjetivos) humanos e a valorização de estados de euforia, socialização ou alegria, a melancolia funciona como um gatilho potencialmente biológico para o questionamento negativo das correntes ou padrões de desarmonia que compõe praticamente todas as sociedades humanas, cada pedaço de ambiente que é ocupado por seres humanos ou que foi modificado por eles.

Mas a maioria das pessoas inteligentes não serão melancólicas e é justamente aí que o alcance dos tradicionais testes cognitivos começa a falhar consideravelmente. A criatividade, na minha opinião, se relacionará com melancolia, tendências psicopatológicas assim como também com a própria ”psicopatologia” (coloquei entre aspas porque é deveras complexo demais reduzir as personalidades extremas como simples patologias) e consequentemente com tendências suicidas.

A ideia de que a melancolia seja principalmente um produto das interações gene-ambiente, não parecem fazer sentido algum quando analisamos as taxas de suicídio ao redor do mundo. Era de se esperar que em ambientes com maior estresse social, com pobreza extrema e violência, as taxas de suicídio fossem maiores do que em nações em que a qualidade de vida é mais alta.

Taxa de suicídio por país.

fonte: wikipedia

Isso nos mostra que apenas a interação humana com o seu meio (extremismo ou determinismo dos fatores ambientais como principal influência do comportamento humano) ou ”ação e reação”, não é capaz de explicar sozinha o porquê das altas taxas de suicídio em nações com boa a excelente qualidade de vida bem como pelas baixas taxas de suicídio em nações pobres e especialmente entre as nações muito pobres.

Suicídio está negativamente relacionado com médias de qi, mas como eu sugeri acima, parece ser positivamente relacionado com criatividade assim como também com melancolia, que aumenta a suscetibilidade para a depressão (ou melancolia crônica) assim como também com a autoconsciência. E quando todas elas estão presentes em um mesmo indivíduo, é muito provável que a genialidade ou ao menos a excepcionalidade humana se manifeste.

Vale ressaltar sempre que médias estatísticas NÃO SÃO afirmações estatísticas. Portanto, correlações negativas não querem indicar que não haja correlação alguma. Quer indicar que em média, a correlação será menos provável de acontecer. O caso do suicídio e qi é emblemático, porque pelo que parece, nos mais altos níveis de pontuação de qi, os traços psicóticos aumentam, e psicoticismo está positivamente relacionado com tendências suicidas.

 

Conclusão

 

Este breve texto teve como iniciativa resgatar o termo ”melancolia”, mas sem ter o intuito de patologizá-lo. Este tipo de ação demente eu deixo para a gentalha pedante que predomina sobre as ciências humanas e especialmente sobre a psicologia.

É fato que existe um estado, condição ou personalidade (depende de caso pra caso) que não se encontrará dentro do ”espectro da euforia” (ou ”alegria”) e nem dentro do espectro final da euforia, onde se inicia o estado depressivo. A melancolia é um traço comportamental que pode ser combinado com qualquer outro, até mesmo com alegria aparente, ou algum tipo de manifestação exterior de empatia ou de simpatia. O potencial de manifestação se dará de acordo com a sua importância hierárquica dentro do quebra-cabeças de cada personalidade. Como eu disse, algumas pessoas apresentam uma personalidade melancólica, e serão fortemente propensas a se tornarem depressivas ao longo do tempo, enquanto que outras pessoas apresentarão uma condição ou estado melancólico, que poderá ser constante porém menos importante em termos hierárquicos de funcionamento da personalidade, que poderá ser o resultado de algum tipo de transtorno pós traumático ou mesmo que poderá ser o resultado de algum tipo de contaminação por patógenos. Os fatores causadores da melancolia são multifacetados e com diferentes epicentros. No entanto, sabe-se que quanto mais forte for a seleção, menos ”instável” ou epigenético, será a hereditariedade de determinado comportamento ou traço qualquer, incluindo os traços fisiológicos.

A melancolia se relaciona consideravelmente com criatividade, genialidade, autoconsciência, predisposições psicopatológicas, psico’patologia” e tendências suicidas. Sua correlação com inteligência será mais ou menos semelhante àquela que tem sido encontrada enter depressão e inteligência, que é a sua ”representante” no mundo moderno. Vale ressaltar no entanto que enquanto que o estado depressivo, encontra-se além do suportável para a maior parte dos seres humanos, a melancolia é consideravelmente menos grave, ainda que possa predispor à depressão, não significa que sempre a causará.

 

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