Um segundo de sabedoria, uma eternidade de Deus

Enquanto a minha carne se espalhava pelo chão e a minha visão se tornava mais embaçada, a minha mão segurou-se em minha força decrescente e sua cor vermelha de sangue me sugeriu que fechasse os olhos e guardasse as lágrimas de meu futuro velório.

Nada vi, nada senti, nenhuma dor intensa, nenhum sentimento de descrença, nenhum ódio tardio contra a humanidade…

Mil memórias pularam sobre minha alma, tal como crianças e suas pernas fracas em banhos no veraneio europeu,

Fragmentos de alegrias que desprezei, voltaram solenes e velozes, condensando-se para formar uma única massa de eventos de outrora,

O sol cegou meus olhos, desde quando eu teimara em fitá-lo com ousadia, o meu primeiro amor apareceu tal como um príncipe em seu cavalo negro andaluz, tal como o próprio Deus que nos salva em momentos de sorte repentina, sua masculinidade e poder.

Eu, menina pobre e loura que corria descalça pelas estepes sem fim da pequena Rússia, lembrei de tantas sensações que vivi, que mais pareceu que minha vida tivesse corrido uma eternidade,

Eu que pensei comigo mesma certo dia, certa noite, certa hora, como o tempo passa rápido e como Deus é injusto com suas criaturas,

Agora havia pensado que meu pequeno mundo de certezas e conveniências de gente sem dote, se despedaçara por completo,

Os cacos se fizeram sentir novamente quando recobrei aos olhos da realidade bizarra e vi todas as formas de morte e assassinato que a criatividade macabra e inconsciente jamais poderia pensar em produzir….

Então, meu irmão gêmeo que nunca nascera, apareceu pra mim, apenas por meio da penumbra de minha visão obscurecida. Seu rosto que nunca existira, formou-se forte e coeso diante de mim. Beijou-me como jamais fizera e saiu em meio à fumaça que se formara depois da destruição de um belo prédio neoclássico, que já me prestou tantas lembranças doces.

Tal como quando em uma noite de lua cheia, pus-me nua a fumar e a escrever minhas poesias, enquanto que meu amante se dispusera em pelo na beirada da cama de casal,

Eu que sonhara por dias melhores, pelo próprio nirvana, pela perfeição…

E cá estou agora, assada pelas próprias chagas de sangue, banhando de sangue, a praça onde tomei sorvetes com meus amigos de infância,

Colorindo o último dia cinzento de minha vida, com minha própria carne.

Desprezando à força, todos os pequenos egos e preciosismos tal como a vaidade de artista, agora, só queria que meu joelho parasse de doer, que a hemorragia parasse de banhar o chão sujo e destruído…

Quando o desespero aparece na esquina, pronto para dominar e me transformar em um animal agonizante, tímidos raios de sol teimam em rasgar o manto cinza de nuvens carregadas e uma tal sabedoria, desce sobre os meus olhos, tirando minha visão, que já não era mais necessário, matando a minha dor bem como o peso morto de meu corpo decomposto e me fez ver a luz da eternidade.

A evolução já estava concebida…

 

Sobre santoculto

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