O homem de gênio de Cesare Lombroso, último texto e a comprovação moderna da relação entre loucura e extrema capacidade

O livro ”O homem de gênio” de Cesare Lombroso, não foi o primeiro trabalho a postular a relação entre a extrema capacidade intelectual ou cognitiva da espécie humana e as psicopatologias, que eu prefiro denominar como personalidades extremas.

Como no próprio livro de Lombroso, existem relatos e evidências milenares não apenas de uma correlação entre a genialidade e a ‘loucura’ mas também de uma causalidade simbiótica entre ambas como por exemplo, quando ele fala de casos de pacientes com inteligência medíocre que durante rampantes de aflição mental, terminam por desenvolver temporariamente, grande capacidade intelectual, que não tinham antes dos episódios. Hoje em dia, já se tem uma clara noção do papel que as variações mais extremas de humor podem ter como um promotor da criatividade. É muito interessante que a palavra profeta tenha tido, especialmente em tempos mais antigos, um significado quase idêntico ao da palavra louco. A tradição dos shamãs se estendeu para as sociedades complexas. O igualitarismo, a nova religião das massas, parece somente um desdobramento do papel da psicose na promoção da cultura e das crenças populares, tal como nos tempos dos primeiros monoteístas semitas.

Francis Galton, contemporâneo de Lombroso, também já havia notado que a extrema capacidade tende a caminhar lado-a-lado com a loucura. Ele, inclusive, foi o responsável pelo primeiro estudo científico de renome que buscou identificar a hereditariedade do gênio com base na genealogia de famílias de pessoas eminentes.

Até o início do século XX, nenhum cientista duvidou dos monstruosos trabalhos de Galton e de Lombroso e todos aqueles que detinham uma curiosidade sobre o intelecto humano, já sabiam por osmose que para ser extremamente habilidoso, era necessário ter um parafuso a menos na cabeça.

A quantidade de gênios que apareceram no mundo das artes, do entretenimento, isso sem falar dos inventores dos meios de comunicação de massa, da política e de tantos outros nichos que exigem grande capacidade e que não eram cidadãos, digamos assim, ”plenos de suas faculdades mentais”, somente comprovou a paisagem comum que já se notava desde a muito tempo.

Mas o primeiro estudo longitudinal, realizado por Lewis Terman, transformou radicalmente a psicologia e a psicometria, ao ponto de destruir quase que totalmente a clara relação entre a loucura e a genialidade. A partir disso, passou-se a usar com grande frequência, termos depreciativos para se referir à ”suposta” relação entre disfuncionalidades mentais, amplamente desprezadas por boa parte da população humana, e a extrema inteligência. Dois extremos de funcionalidade, diziam os modernos seguidores dos pseudo-gênios termites (em sua maioria), não podem conviver dentro do mesmo ser humano ou ”não faz sentido que alguém tão inteligente possa ter problemas mentais”. Os casos de genialidade combinada com loucura (como Lombroso ressaltou, praticamente todo o gênio é ”louco”) foram retratados como ”evidências anedóticas” ou uma compilação de dados de pequenos grupos que não poderiam sustentar a priore qualquer conclusão sobre o assunto. No entanto, eu sou da opinião de que existem certos assuntos que não necessitam deste extremo preciosismo científico. Parece ser tão óbvio que beira ao ridículo negá-lo. Mas nós vivemos no mundo do ridículo e é claro que os ”termites” jamais deixariam que de imediato, a possibilidade de serem retratados como gênios, fosse descartada. Vale ressaltar que eu não posso desprezar nenhum subtipo de pessoas inteligentes, mas eu posso tratar com desprezo e você também, aqueles que tem sustentado esta visão extremamente unilateral da realidade da capacidade humana.

A derrubada do mito dos gênios ou da maior parte deles como pessoas socialmente ajustadas e com boa saúde, deve acontecer o quanto antes. Não é que eu não gostaria que isto fosse verdade, mas o fato é que não é e portanto não é possível continuar a sustentar mentiras que desde a sua matriz, ocasionam uma cadeia de eventos, tal como a queda de uma construção de dominós, onde os verdadeiros subtipos de gênios serão em sua maioria não-selecionados em prol de termites, como muito provavelmente tem acontecido desde que os achados de Terman foram oficializados.

GÊNIO E QI

Um estudo recente sobre as crianças intelectualmente precoces, encontrou uma grande variação de pontuações de qi, de 108 a 147. Como eu já suspeitava, para a genialidade, não há a necessidade de um super alto qi. No entanto, o mito dos termites permanece quase que intocado, onde as ideias extremamente simplistas sobre a variação de capacidade humana, tal como ”mim ter qi alto, mim ser mais inteligente”, continuam a se espalhar pela mídia popular assim como também, o endeusamento do qi e o seu próprio sub-aproveitamento continuam a acontecer e especialmente nos ambientes onde não deveria.

Camilla Benbow encontrou em seu lendário trabalho realizado nos anos 80 e com grande amostra representativa, uma relação similar entre extrema capacidade e lateralização anômala do cérebro, com a de Lombroso, quase 100 anos atrás em seu ”O homem de gênio”.

No mundo moderno, as características encontradas nos grandes gênios do passado por Lombroso e por outros contemporâneos, são praticamente as mesmas que são encontradas entre os espectros de personalidades extremas como o autismo, a esquizofrenia e o transtorno bipolar.

Na verdade, Lombroso deixou claro quanto a existência bem como a diferença entre tipos de ”idiotas” semi-gênios como savants e autistas e os gênios eminentes. Esta observação pode comprovar a teoria do gênio como uma espécie de ”autista psicótico”, validando em partes a teoria do autismo como o ”cérebro masculino extremo”, apesar da grande similaridade entre o espectro e a genialidade. A maioria dos gênios segundo os achados biográficos de Lombroso, de fato, pareciam ser mais ou menos uma mistura de autista com psicótico.

Estudos longitudinais recentes e com grande amostra representativa, encontraram uma clara relação entre pontuações de qi como também desempenho acadêmico extremo com maiores tendências psicopatológicas.

A genialidade pode aparecer de muitas formas, mas pelo que parece e faz muito sentido também, o gênio tende a resultar de grande inteligência especializada ao invés de uma grande capacidade geral.

Os estudos modernos encontraram uma clara relação entre a criatividade e a predisposição para transtornos mentais, especialmente em parentes próximos de portadores homozogitos.

Apesar de eu ter notado uma fraqueza neste estudo, realizada na Suécia, que pretendo mostrar no próximo texto, não há mais dúvidas quanto à natureza etiológica entre genialidade, criatividade e a predisposição para psicopatologias.

A reanálise sucinta e definitiva do estudo de Terman, que foi responsável pela confusão entre termites e gênios é a ação mais importante na ciência cognitiva, visando a partir disso, definir com melhor exatidão quem é quem e desconstruir o mito moderno sobre o qi, como o único fator preditivo de extrema capacidade, quando a relação é bem mais complexa.

Desta maneira, será possível de fato encontrar os gênios antes e portanto aproveitando o máximo possível de talentos extremos ao invés do subaproveitamento que acontece hoje em dia.

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