O limite do humor

No mundo politicamente correto de hoje, nada mais urgente do que debater sobre qual é o limite do humor. Sim, muitas pessoas, altamente ”sensíveis” (fakes e verdadeiras) acreditam que o humor moderno brasileiro, basicamente uma cópia do humor americano, se tornou abusivo e altamente ofensivo. Os humoristas defendem o seu lado partindo da lógica de que ”o humor sempre foi ofensivo, faz parte de sua natureza” e de que ”em uma sociedade democrática, a liberdade de expressão deve ser respeitada”. No entanto, depois de passar alguns anos acreditando em todos estes pressupostos resolvi mudar quase-radicalmente a minha posição em relação a este tema. Me lembrei do quão inocente e puro o humor era na era dourada do rádio, da era pré-televisão domiciliar. Me lembro que ainda mais antigo que o rádio, durante os espetáculos nos circos, o humor do palhaço e suas estripulias levantavam um mar de risadas sinceras, de adultos a crianças. O humor do palhaço e muito menos o humor do show de ”bizarrices” presente no circo, como a ”mulher barbada”, me chamou a atenção por uma série de motivos. O primeiro deles é a neutralidade que a maquiagem e o nariz vermelho conferem ao palhaço, um ser despersonalizado e desestereotipado. O palhaço não é representante de nenhum grupo, não está lá para humilhar ou ofender ninguém. O palhaço poderia ser entendido até como um representante materializado do humor, genuíno, sincero e que não é especificamente ofensivo. Mesmo os shows de ”bizarrices”, uma das muitas atrações dos circos de antigamente e dos circos desgastados de hoje, não representavam necessariamente um escárnio aberto a pessoas ou grupos, inclusive, estas pessoas diferentes eram consideradas como especiais justamente por causa de suas idiossincrasias, fosse uma barba em um rosto de mulher ou uma altura muito abaixo da média. As ofensas não partiam diretamente de uma pessoa, despossuída de uma neutralidade analítica, mas poderia vir de pequenos populares, ainda que estes o fizessem mediante as suas ignorâncias em tolerar o diferente. Ainda assim, nada se compara aos abusos de hoje em dia.
O que são fatos a serem considerados, a democracia necessita de tolerância para pontos divergentes para ser considerada como tal e o humor de hoje em dia tornou-se muito mais sofisticado. Provavelmente, os humoristas de hoje em dia são bem mais inteligentes do que os palhaços dos circos de outrora. No entanto, para tudo na vida, há que haver um limite.

Neutralidade

A neutralidade é algo que em talk shows americanizados, não se vê mais. O que se vê são indivíduos falando de suas próprias impressões sobre os acontecimentos cotidianos, salpicados de pré julgamentos tendenciosos, porém válidos, afinal de contas, não somos perfeitos e não gostamos de tudo, aliás, tendemos a desgostar de quase tudo hoje em dia, especialmente quando se tem um cérebro potente em uma paisagem cultural desoladora como é o Brasil.
Apesar disso, fica claro que, o humorista de talk show está expondo os seus pontos de vistas caricaturais, especialmente das pessoas nas quais ele encontra eventualmente. Isso é válido em uma sociedade democrática, em uma sociedade perfeita onde todos se respeitam e entendem que as impressões, as muitas milhões de impressões que desenvolvemos em um só dia se dissiparão até o crepúsculo, enquanto que muitas outras serão reforçadas. Mas não vivemos nesta sociedade perfeita vivemos* não.
O primeiro problema do humor é que ele não é neutro, é uma pessoa que fala mal daquilo que não gosta ou que rejeita, sim, porque fazer humor é caricaturizar os próprios demônios. O humor neutro não é falar de nada ou de coisas, ideias e não de pessoas, o humor neutro na minha opinião é falar mal, se é que se está a fazer isso, de tudo e de todos, dos seus demônios e dos seus anjos. O humor é rir da vida e não entendo porque somente alguns grupos são prediletos para esta função enquanto que todo o ser humano é um mapa mundi de defeitos estúpidos.
O que vemos hoje em dia é o humor extremamente abusivo, por exemplo, contra os homossexuais, onde todo e qualquer programa de humor, deve-se como honraria da casa, espezinhar cada detalhe de comportamento deste grupo. Existe uma tendência crescente por parte dos humoristas em burlar as vacas sagradas do politicamente correto e cair em cima, no bom sentido,kkk, por exemplo, dos negros ou afrodescendentes ou seja lá o que forem. É fácil rir dos outros, mas rir de si mesmo não é e mais, quando a piada é indireta e visa atingir grupos, supostamente abstrações, o efeito parece ser ainda maior e portanto pior. Rir de si mesmo quando não há outra alternativa é menos pior quando o seu grupo de maior afeição existencial está sendo usado como judas.
Portanto, se for falar mal mal que se fale de tudo e de todos e que todos saiam daquele salão de eventos satisfeito em saber que ninguém é perfeito e que todos estamos predispostos ao escárnio. Do contrário, choramingar ”democracia” parecerá tão hipócrita quanto aqueles que a negam ainda que se definam como protetores da mesma.
Ainda vejo futuro para a despersonalidade do palhaço e do humor humilde, neutrocêntrico e simples.

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