Antropomorfia, construção biológica do indivíduo e o ‘liberalismo’ (neurologia cultural)

 

A construção do indivíduo não pode se dar somente ou essencialmente por meio de articulações sociais ou circunstanciais. Sabe-se que  todo comportamento humano é o resultado de predisposições ”genéticas”. O ateísmo por exemplo, apresenta similaridades neurológicas para com o autismo. A predisposição genética não quer indicar que o indivíduo portador irá manifestá-la, fenotipicamente, por meio de suas interações sociais. Dependerá do grau de predominância dos traços específicos em comparação aos outros. Por exemplo, os sociopatas são mais epigenéticos do que os psicopatas, provavelmente porque a herança genética dos segundos é mais heterozigota, mais diversificada. Como resultado, os sociopatas apresentarão uma maior variabilidade de comportamentos, tanto a nível individual quanto a nível coletivo. Não haverá uma predominância significativa de personalidade neste caso (sim, nós não temos somente uma personalidade, mas a soma de todos os nossos eus pode ser entendido como ”a personalidade predominante). Estas variações de personalidade não se restringem somente a este caso, obviamente.

A personalidade é como uma piscina com ondas, onde as ondas são o padrão de variações comportamentais, mas o formato e tamanho da piscina ou personalidade será o mesmo. A essência do seu eu, é o tamanho e formato de sua personalidade. Os patógenos seriam como as pessoas que frequentam a piscina de ondas. A vida de uma piscina de ondas se encontra em seus frequentadores.

O indivíduo, segundo um viés biológico, é aquele que exibe variabilidade interna que se destoa das pessoas ao seu redor. A sua individualidade é expressada fenotipicamente por meio de sua cultura neurológica incomum.

A construção biológica do indivíduo se faz por meio da exogamia, processo seletivo ou de acasalamento de indivíduos que não são geneticamente relacionados, especificamente de uma forma direta. A construção de uma sociedade predominantemente exogâmica se dá por meio de séculos de acasalamento de não-parentes ou pela separação radical dos pares mais dóceis e posterior acasalamento.

Antropomorfia e seleção anti-natural

O europeu moderno vive atualmente aquilo que eu denomino como Antropomorfia ou seleção anti-natural. A seleção anti-natural é o oposto da seleção natural, como o próprio nome diz, em que os processos naturais, contextuais ou circunstanciais de seleção ou de pressões seletivas são substituídos por atributos humanos, onde a adaptabilidade e isso se traduz em saúde reprodutiva, é substituída por escolhas inerentemente humanas ou de igual natureza. É o homem sem a natureza.

Este processo não é possível sem a seleção de indivíduos e não mais de clãs. Séculos de exogamia no norte da Europa produziram uma população de indivíduos, que se comportam como tal, consideram os outros como tal (mesmo aqueles que não são exatamente como ”indivíduos”) e passam a renegar categoricamente todas as bases da sociedade humana típica que é uma híbrida de pressupostos caracteristicamente presentes no reino animal, com pressupostos culturalmente humanos.

Neotenia extrema

A seleção antinatural pode ser entendida inclusive como uma espécie de neotenia psicológica extrema, visto que a evolução humana nada mais é do que a continuação do processo de infantilização da espécie. O processo de diversificação individual é o resultado de séculos de exogamia ou seja, de acasalamentos de indivíduos não-aparentados. O indivíduo humano é o resultado destes processos. É comum em muitas espécies não-humanas a estratégia de acasalamento endogâmico onde são criados ”quase-clones”, inclusive em relação à aparência física. Em um sentido lógico, esta estratégia é menos custosa e mais eficiente. Mas, por mais similares que possam parecer os ”indivíduos” (sem o sentido social e humano deste) dentro de uma espécie, sempre haverão diferenças internas, mesmo que sejam muito pequenas.

O processo de neotenia é especialmente a feminização do homem, visto que a mulher já é consideravelmente mais neotênica. A partir do momento em que os homens são domesticados, passa a ocorrer a gradual redução do dimorfismo sexual e se o processo for mantido, irá chegar ao ponto em que os sexos começarão a se emparelhar significativamente, produzindo um aumento de androginia biológica, hermafroditismo dentre outros casos de inversão dos gêneros.

 

Cultura neurológica liberal, a perspectiva do indivíduo

Os liberais rejeitam todas as construções de caráter biológico das sociedades humanas em um sentido filosófico hiperrealista eles não estão errados. No entanto, vivemos em um mundo onde o estilo de sociedade híbrida animal-humano é quase que totalmente hegemônico. Por isso, os liberais se tornaram presas fáceis, em um sentido contextual, porque eles são uma minoria em todo mundo.

Tribalismo, diferenças de gênero, hierarquia social etc… são construções humanas baseadas em nossas próprias predisposições genéticas mais gerais.

O tribalismo existe porque o ser humano ao se espalhar pelos quatro cantos do mundo, criou vários clusters genéticos e por isso produziu populações geneticamente aparentadas e com predisposições para o altruísmo intergrupal. Culpe o sucesso humano em colonizar todos os continentes pelo racismo.

As diferenças de gênero são a expressão culturalmente fenotípica de nossa estratégia de acasalamento bem como de todas as espécies sexuadas.

A hierarquia social, paradoxalmente rejeitada pela maioria dos liberais, é o resultado das diferenças individuais e de subgrupos dentro das comunidades ou populações humanas.

Os liberais ou socialistas rejeitam estes tótens das sociedades híbridas humano-animália, porque eles são os vestígios concretos de nossa natureza animal, que renega a existência do indivíduo. Os liberais são cronicamente empáticos e isso se dá especificamente porque eles são neurologicamente construídos para favorecer a cultura do indivíduo.

A cultura neurológica do indivíduo se baseia na especialização de personalidade a nível individual, onde todo o indivíduo é um ser solitário e que precisa da cooperação dos outros bem como de sua própria cooperação ao grupo para funcionar na sociedade.

A cultura da solidão reverbera na focalização apenas do indivíduo e não mais em relação às suas filiações numericamente abstratas como raça, religião, classe social ou classe cognitiva.

O que parece um culto pos-moderno ao suicídio nada mais é do que a completa negação das construções naturais ou biológicas do ser humano.

Portanto, para os liberais ou socialistas, não existem raças, tribos, classes, porque tudo isso é substituído pelo indivíduo.

 

Prisão abstrata

Somente por uma questão de contexto circunstancial, que os liberais podem ser entendidos como prisioneiros de sua própria cultura neurológica, visto que como eu disse acima, a grande maioria das demais sociedades humanas não são liberais, nem mesmo as sociedades ocidentais são majoritariamente liberais.

A evolução do ser humano é a sua negação quanto aos seus vestígios comportamentais animais, onde a coletividade geneticamente aparentada é o principal deles porque abarca todo o resto. O indivíduo é dominado pelo coletivo da mesma maneira que o predador é tão forte quanto uma manada. A luta entre o indivíduo e o coletivo é a luta do ser humano em busca de sua humanização completa e portanto da negação também completa, de sua natureza animal. A sua liberdade é a sua libertação de sua persona animália. A princípio, os liberais assim o fazem. No entanto, sabe-se que todos nós somos animais. A natureza liberal ainda é natureza. O que diferencia o liberal do conservador não é a sua falta de natureza animal, é a diferença dela.

Por exemplo, se entre um grupo de galinhas, algumas galinhas passassem a voar, então isso poderia ser entendido como uma negação biologicamente predisposta desta minoria para fazer o contrário do que foi desenhado pelos desígnios evolutivos da espécie.

A negação da estratégia de sucesso de um grupo pode ser entendido como a negação da própria natureza primordial de sua espécie. Se o peixe começasse a se rastejar pelo solo, se o cachorro passasse a miar e a andar pelos telhados da casa, como um gato faz…

Mas sendo o ser humano, o animal especial e estranho que é, pode-se entender que a substituição dos atributos biológicos por atributos da própria espécie, por mais cronicamente mal adaptado que possa parecer, ainda será o seu destino enquanto uma espécie em evolução.

 

A evolução humana é a expansão de sua autoconsciência. É a continuação do seu desvio e a partir do momento em que o ser humano, por uma questão de erro, ”decidiu” seguir este caminho, em que o equilíbrio corpo-mente começou a ser quebrado, por causa da escolha pela mente, então a sua alterevolução será a antropomorfia, consideravelmente ajudada pela ”escolha de Sofia” que produziu a humanidade, a escolha pela inteligência.

 

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2 responses to “Antropomorfia, construção biológica do indivíduo e o ‘liberalismo’ (neurologia cultural)”

  1. Marcos. says :

    Muito interessante e inteligente.

    • santoculto says :

      Obrigado. A intenção é tentar entender qual são as duas maiores transcendências da espécie humana, a primeira, tornar-se a si mesmo, ao ponto do extremo oposto da natureza. Eu vejo um pouco isso em nós.
      A segunda, a busca por Deus, seja lá o que isso ou este for.

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