Uma refutação à ”teoria da savana” de Satoshi Kanazawa parte 1

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A teoria da savana, desenvolvida por Satoshi Kanazawa, transformou-se em um micro fenômeno dentro da ciência popular nesses últimos anos. Os seus princípios e pressupostos são muito interessantes, mas até onde eles estão corretos?

Esta teoria baseia-se na ideia de que as pessoas mais inteligentes tendem a se engajar mais em comportamentos evolutivamente novos do que as pessoas menos inteligentes e isso se aplicaria a um dos componentes que mais se correlacionam com alto qi que é a abertura para a experiência. Segundo Kanazawa, as pessoas mais inteligentes teriam uma tendência para se engajar nestes tipos de comportamento porque elas tendem a ser mais curiosas e avessas às regras sociais predominantes do que as pessoas menos inteligentes. Ainda segundo Kanazawa, os chamados ”comportamentos evolutivamente novos” não existiam nos ambientes ancestrais da espécie humana. Isso explicaria o porquê das pessoas estúpidas terem uma tendência para evitá-los, visto que seriam menos evoluídas que os mais espertos e portanto mais arcaicas. No entanto, existem uma série de erros neste estudo, alguns que eu já havia enxergado logo nos primeiros anos em que fui exposto à teoria e que agora, depois do aparecimento de muitos estudos relacionados aos exemplos de comportamento novos que Kanazawa usou, se tornou ainda mais evidente que é provável que a validade desta teoria esteja a caminho de uma refutação final e portanto conclusiva.

Kanazawa elencou alguns exemplos de comportamentos que ele classificou como ”evolutivamente novos”. São eles:

– Uso ou abuso de drogas

– Uso ou abuso de álcool

– Comportamentos sexuais recreativos como a homossexualidade

– Baixo desejo para ter filhos

-Ser socialista

– Ser um notívago

-Se tornar vegetariano

– Maior predileção por músicas instrumentais e

– Ser ateu ou agnóstico

Comportamentos ”evolutivamente novos”

A ideia de algo que é novo, baseia-se no seu aparecimento recente. Por exemplo, o meu primeiro fio de cabelo branco. A internet hoje em dia e em relação aos anos 80. etc,etc,etc Um comportamento evolutivamente novo do ser humano poderia ser por exemplo a habilidade de voar ou de levitar. Sabemos que os únicos que ”são capazes” de fazer estas estripulias são os mágicos por meio de suas ilusões ópticas. A ideia de que no nosso passado ancestral nenhum destes comportamentos existiam realmente não entra na minha cabeça. Pode ser porque a imensa maioria dos comportamentos engajados pelos seres humanos não tenham uma datação de tempo, como se fosse uma camada geológica. Nós sabemos cada vez mais que não somos únicos e que muitos de nossos comportamentos são praticados por outros animais, especialmente os primatas.

Kanazawa parece estar confundido aqui que se um comportamento não é majoritário então, ou ele não existe, ou não é ”antigo”.

Se no passado a grande maioria das pessoas eram religiosas e hoje existe uma minoria significativa, somente nas nações de primeiro mundo, de ateus, isso não quer indicar que, não existiam ateus ou que o ato de não acreditar em forças superiores é evolutivamente novo. Algo evolutivamente novo seria algum comportamento que apareceu muito recentemente, por mutação. A capacidade para encontrar e produzir abstrações pode ser um exemplo de habilidade ”recente” da espécie humana…

Como resultado eu pretendo refutar os exemplos que Kanazawa utilizou para provar a sua teoria, mostrando que, a maioria dos comportamentos humanos não são evolutivamente novos e segundo, que a maioria de nossos traços de personalidade derivam de predisposições epigenéticas e que portanto, geralmente não temos muita escolha.

Alta inteligência (qi) se relaciona com o aumento de mutações e portanto de predisposições epigenéticas para comportamentos mêmes, evolutivamente mal adaptativos. Isso relaciona menos com ”escolha” e mais com redução do fitness ou da saúde reprodutiva.

 

Abuso de substâncias químicas e de álcool

Satoshi Kanazawa cita o abuso de substâncias químicas e de álcool como um comportamento evolutivamente novo que é mais praticado por pessoas mais inteligentes em comparação aos seus pares menos espertos. Eu não consegui entender o termo ”evolutivamente novo”, visto que não ficou claro o quão novo estes comportamentos poderiam ser. A ideia de novo e velho é muito relativo e a introdução de estimativas de quando estes comportamentos surgiram, poderia melhorar a minha visão quanto a este atributo. No entanto, o termo ”novo” ficou muito vago. O que eu poderia pensar é que o hábito de aderir ao uso de substâncias químicas, fabricadas ou pré-fabricadas pelo homem, possa fazer parte da constelação de traços comportamentais do ”ser humano anatomicamente moderno”. No entanto, é improvável que a curiosidade para cheirar ou comer alimentos ou substâncias novas seja unicamente um traço humano. Quase todos os traços citados por Satoshi ”parecem” estar presentes na natureza. Não há nada de evolutivamente novo nisso. Nós somos primos de todos os animais deste planeta, herdamos características comportamentais que a maioria deles também exibem. Os traços comportamentais no reino animal bem como na espécie humana derivam de suas adaptações ambientais e isso não é novo.

Assim como para todos os outros traços que Kanazawa elencou, o hábito de aderir ao uso E abuso de substâncias químicas é em parte uma tendência ambiental, de escolha, mas em parte minoritária. Existe uma constelação de razões genéticas e biológicas para explicar porquê algumas pessoas são mais propensas a fumar. E desde que o homem dominou o fogo, é muito provável que já existissem fumantes. Algumas pessoas são mais propensas a tomar bebidas alcoólicas do que outras. Sabemos que, existem pessoas inteligentes que se engajam mais nesta atividade e outras que não se engajam. Por exemplo, a incidência de alcoolismo entre os judeus e especialmente entre os ashkenazim, é consideravelmente mais baixa do que entre os outros caucasianos. Este padrão pode ser encontrado em alguns povos mas não em outros, por razões óbvias de diferentes pressões seletivas.

As pessoas que tem um gosto maior para destilados, geralmente ou na grande maioria das vezes, exibem predileções para degustar sabores mais azedos. Os homens são mais prováveis de serem mais adaptados para beber bebidas mais fortes do que as mulheres. As mulheres são mais prováveis para preferir sabores doces do que os homens. Também existem diferenças raciais significativas visto que a mutação para a tolerância ao álcool é uma quase-exclusividade europeia. Não é só por razões culturais que os ashkenazim tem menos chances de terminarem bêbados em uma sarjeta, mas também porque as pressões seletivas que eles sofreram na Europa até agora, tem dado este benefício em contraste com os seus vizinhos europeus. Amy Whinehouse que primeiro, não era totalmente ashkenazim, e mais provável de ter sido uma sefaradita, é uma minoria entre os judeus.

Não é que, alguém que não tenha desejo de tomar bebidas alcoólicas só não tenha vontade de fazê-lo, mas é especialmente que, ele não está adaptado para a atividade e portanto o seu corpo irá refugar tal como um cachorro que evita pular de uma altura muito grande. Aqueles com predisposições alcoólicas geralmente estão mal adaptados, especialmente porque o hábito tenderá a se transformar em um vício. E o mais importante, geralmente não existe escolha aí…. Se o seu paladar foi biologicamente construído para suportar sabores mais fortes e azedos, não tenha dúvidas que isto já se consistirá em uma grande motivação para beliscar uma cachaça.

Homossexualidade ou outros comportamentos sexuais recreativos

Satoshi Kanazawa acredita que a homossexualidade é um comportamento evolutivamente novo da espécie humana. Mais uma vez, o adjetivo novo ficou consideravelmente vago aqui. No mais, primeiro, este tipo de comportamento é extremamente comum na maior parte se não em todas as culturas humanas, hoje, há 80 anos atrás, há 500 anos atrás, há 2000 e porque não, há 20 000 anos atrás…

A homossexualidade também é encontrada em várias outras espécies da natureza. Inclusive, nós sabemos que algumas espécies são naturalmente hermafroditas. A ideia de que, em nosso ambiente ancestral não existia a homossexualidade parece improvável de ser verdade, especialmente se ela é tão difundida ao redor do mundo o que nos faz acreditar que este ”traço” é parte da essencialidade biológica, também, da espécie humana, como ter dois olhos e andar ereto. Aquilo que pode e deve ser considerado como evolutivamente novo especialmente para os humanos, não pode existir em outras espécies OU deve ser algo completamente novo para a nossa espécie como a capacidade para voar. Se todo o comportamento é predominantemente genético e biológico, então a homossexualidade, especialmente em seus níveis mais extremos, não será uma escolha. Também se pode confundir com ”estilo de vida”’ e ”essência periférica de comportamento do indivíduo”. No passado, a maioria dos homossexuais ou daqueles com predisposições para o comportamento, por razões culturais e religiosas, foram obrigados ou se sentiram na obrigação adaptativa de se casarem, da mesma maneira que alguém que ”nasce canhoto” é ”educado” a se ”tornar destro”. A mão com que escreve pode ter mudado mas o seu cérebro continuará simétrico.

A ideia de Satoshi Kanazawa é a de que ”as pessoas mais inteligentes tendem a buscar ou a escolher por comportamentos evolutivamente novos” como a homossexualidade. No entanto, nem a homossexualidade é um comportamento novo e nem é somente uma escolha. Se não houver empecilhos secundários, a maioria dos homossexuais ”mais puros” se engajarão em atividades sexuais não-procriativas e portanto, de natureza recreativa, com o mesmo sexo, porque eles são mais biologicamente predispostos ao ato.

Outro ponto fraco da teoria, especialmente em relação a este suposto comportamento evolutivamente novo, é a ideia de que os homossexuais são mais inteligentes do que os heterossexuais. Em termos coletivos, isso não parece ser verdade, visto que como um grupo, os homossexuais são mais variáveis em suas capacidades técnicas, de qi, do que os heterossexuais. Tal como os ateus em relação aos gnósticos, os homossexuais estão mais representados tanto no extremo da ponta direita da curva de sino, quanto da ponta esquerda. É inconclusivo sugerir que os homossexuais como um grupo são mais inteligentes, mas é correto dizer que mais homossexuais serão encontrados entre aqueles de qi alto do que os heterossexuais, proporcionalmente falando é claro. Isso, desprezando as minhas opiniões pessoais em relação às fraquezas dos testes de qi, prova que a homossexualidade não é a causa de maior inteligência, mas uma maior inteligência pode se relacionar com o comportamento. No entanto, alguns estudos parecem sugerir que alguns componentes que se relacionam diretamente com a homossexualidade, podem ter vantagens cognitivas, visto que a masculinidade extrema geralmente não se relaciona com inteligência e nem com criatividade. Portanto, o comportamento homossexual pode não resultar em maior inteligência, mas vários atributos que causam ou predispõe ao comportamento se relacionam e são causais, como por exemplo a menor masculinidade, que reduz a agressividade e aumenta a cooperação. No entanto, primeiro, a teoria de Kanazawa mediante o atributo homossexualidade, provou-se errada, a partir do momento que ele sugere que, este comportamento é evolutivamente novo e é predominantemente influenciado por fatores circunstanciais como uma maior tolerância social à prática. Um exemplo fantástico quanto à universalidade e antiguidade da homossexualidade pode ser vista entre os bonobos, uma das espécies de primatas mais inteligentes e também mais pacíficas.

Segundo, os homossexuais não são mais inteligentes que os heterossexuais, especialmente em termos coletivos. Um subgrupo de mais inteligentes é que são e isso não prova o ponto de Kanazawa.

Terceiro e último, ninguém deixa de ser homossexual. Só se o patógeno do sexo que o faz preferir homens a mulheres (ou vice versa, no caso das lésbicas) for retirado,  o que ainda pode não resultar no fim deste comportamento no hipotético indivíduo submetido a esta hipotética ”cirurgia microbiológica”. A maior incidência de homossexuais entre os mais tecnicamente inteligentes, pode se relacionar ao mesmo princípio que prova a maior presença de pessoas inteligentes que se engajam em comportamentos de risco como tomar bebidas alcoólicas ou experimentar drogas, ou seja, quanto mais distante da média de um grupo, mais exposto à ”infecções” OU SERIA MELHOR, mais exposto a novas interações epigenéticas se estará. Subgrupos cognitivos estão submetidos a diferentes pressões epigenéticas e se não houver uma cultura que adapte estas interações (como a judaica) estes tipos de comportamentos se transformam em mêmes mal adaptados ao ambiente que foi projetado especialmente para os medianos. É como se uma ave fosse aprisionada dentro de uma caverna.

 

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