Pessoas puramente inteligentes estão cronicamente mal adaptadas ao mundo em que vivemos.

Um dos supostos ”defeitos” ou ”sintomas” descritos dentro do critério clínico oficial para ”diagnosticar” alguém com autismo é a ”fixação por interesses específicos”. É interessante imaginar a ”enorme” quantidade de interesses que as pessoas comuns devem ter, para que se possa ser sacramentado no altar da normatividade vitoriana que a paixão pelo conhecimento é uma espécie de sintoma de uma desordem ou doença.

Os autistas podem ser categorizados como puramente inteligentes, ou seja, são aqueles que são providos de um intelecto naturalmente propenso para o aprendizado. Em outras palavras, a maioria dos autistas exibem cérebros biologicamente predispostos para a busca por aprendizado, de forma genuína e sincera, ao invés da ”multiplicidade de interesses” (aka, sociais) dos neurocomuns.

 

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Um exemplo de INTERESSES MÚLTIPLOS que fazem os ”normais” normais e os autistas, pessoas com defeito cerebral

 

 

É interessante como a maior parte da junta psiquiátrica até hoje não parecem ter acordado com relação à flagrante tentativa de patologização de um  dos supostos defeitos das pessoas com esta condição genética mutante e que em realidade, se constitui em um dos pontos mais fortes do grupo. Não é um defeito estar apto para se apaixonar por coisas, objetos, perspectivas ou ideias e esmiuçá-las até ao ponto máximo de capacidade para encontrar detalhes.

Os autistas são um exemplo triste e medonho que se tornou corrente no ”movimento psiquiátrico moderno”, nada mais nada menos do que a legitimação da patologização e posterior incumbência de medidas ”preventivas” ou ”proto-curativas” contra as pessoas dotadas destas condições. Como vou mostrar ao longo deste blog, pretendo também demonstrar que a organização e os métodos, ditos ”meritocráticos”, de nossa organização laboral são incompletos, injustos e de natureza predominantemente subjetiva, onde a busca pelo melhor e portanto objetivamente falando, é substituído pela escolha de perfis cognitivos contextuais e específicos. Uma boa parte dos autistas são extremamente inteligentes em relação às suas áreas de especialização, que são baseadas nas características incomuns de seus cérebros. Todo o autista funcional é um mestre em sua área e isso não deveria ser tão desprezado por nossa sociedade estúpida. Mas se nossa sociedade é de fato, estúpida (incluindo os queridinhos de alto qi e talvez, estes em especial) então podemos inferir que esta É a realidade mais verossímil.

Por meio de sites especializados na condição, uma infinidade de artigos expõe (especialmente)  os aspectos negativos da condição (se estes aspectos de fato são inteiramente negativos) , onde inevitavelmente ocorrerá o aumento da percepção popular equivocada e mesmo dentro da comunidade neurodiversa, de que acima de qualquer outra coisa, ser autista ou mesmo, ter uma manifestação leve da condição, é um sinal predominantemente patológico e nada de bom deverá ser encontrado ali. Se até mesmo os aspectos positivos são escurecidos como ”sintomas”, então uma pessoa ingênua, dentro do espectro ou não, poderá concluir que o autismo só pode ser um defeito,

que precisa ser corrigido,

que provoca comportamentos sociais inapropriados em seus portadores como sinceridade e honestidade,

que não é vantajoso,

e mesmo que possa ser tratado desta maneira,  ainda será visto como uma compensação dos supostos outros defeitos como ser extremamente sensível em situações sociais (esperando tratar a todos de maneira sincera e a partir do momento em que certos costumes sociais de etiqueta são devidamente aprendidos, esperar que os rituais de educação sejam perpetuados dentro dos seus ambientes, o que obviamente não acontece).

Os autistas são um exemplo de grupo de pessoas puramente inteligentes que sofrem consideravelmente em nossa sociedade. Não são devidamente compreendidos e em muitas vezes, são retratados como dignos de pena mas com algumas compensações. O retrato verdadeiro desta situação é, os autistas são uma das poucas populações onde os seus componentes individuais tem um desejo hereditário para aprender, enquanto que os ditos ”normais” são em sua maioria compostos por tipos que definitivamente não exibem este traço especial. Por uma razão óbvia, a maior parte da humanidade evoluiu para dar prioridade para as demandas sociais mais do que as não-sociais e isso inclui o intelectualismo. Nossa organização sexual de trabalho baseia-se em: menor empatia entre homens que se relaciona diretamente com suas maiores capacidades técnicas e maior empatia feminina e consequentemente maiores habilidades sociais e de comunicação. Os autistas, ao contrário do mito do ”cérebro hiper masculino” estão distribuídos em curvas de sino de personalidades de gênero completamente diferentes daquelas que representam a população neurocomum, onde ao contrario desta, existe uma tendência de reversão entre os sexos, onde o homem autista é mais afeminado do que o homem neurocomum e por sua vez, a mulher autista é mais masculinizada.

Algumas pessoas veem o autismo como o atavismo enquanto que parece que o autismo também poderia ser visto como uma forma de neotenia, onde uma das características deste processo, ou seja, a estrogenização masculina, acontece.

Homens puramente inteligentes tenderão a ser mais afeminados (e isso necessariamente não quer indicar homossexualidade) do que a média neurocomum que como nós conhecemos bem, são providos de pitadas nada modestas de estupidez intelectual profunda e fixação sexual pelo sexo oposto e futebol.

Mulheres puramente inteligentes tenderão a ser mais masculinizadas como podemos ver em ganhadoras de prêmio Nobel.

No mundo da subjetividade para questões objetivas e a objetividade para questões subjetivas, não é possível que as pessoas puramente inteligentes estejam bem adaptadas, porque esta atmosfera não tem absolutamente nada de parecido com suas respectivas naturezas pessoais similares.

A pureza da inteligência não se mede quanto ao nível técnico, intelectual ou social a que ela se apresenta, mas em graus de grandeza, onde não existem espectros que possam unir os contextualmente inteligentes com os puramente inteligentes. Não existe uma difusão de traços de um grupo para o outro porque se são de grandezas diferentes, eles também serão de mundos e de mentalidades completamente diferentes. O principal motivo da inoperância crônica dos puramente inteligentes no mundo da conveniência e portanto da contextualidade, se dá justamente por causa desta diferença primordial entre os grupos. Eu posso ainda dizer que não existe, mediante uma perspectiva neutra, alguma superioridade de um grupo em relação ao outro, justamente porque não se pode comparar dois espécimes quase que completamente distintos. No entanto, a única realidade que se apresentou a nós a partir do momento em que nossas civilizações complexas aumentaram de tamanho foi a de que a contextualidade e a subjetividade são componentes mais importantes e úteis para a manutenção da sociedade, tanto para forçar os subgrupos majoritários de menor capacidade cognitiva para procriar e acatar as ordens quanto para a ”fração inteligente”. Até que se prove algum dia que o único jeito de se fazer civilização seja por meio da seleção dos contextualmente inteligentes, eu não posso aceitar que os puramente inteligente estarão sempre em desvantagem direta, se o mundo moderno não foi criado pra eles. Eles estão em desvantagem agora mas não significa que será sempre assim.

 

Harmonia, verdade e honestidade

 

Ser honesto consigo mesmo e com os outros é uma coisa boa, sensata e inteligente de se fazer. A honestidade se relaciona com a verdade e por conseguinte com a harmonia. Como eu disse em vários posts, aquele que é capaz de buscar e encontrar padrões lógicos e não me refiro à teste de raven, também é capaz ou estará sempre em busca da beleza, da harmonia e portanto da verdade. Nosso corpo responde mal quando mentimos e a mentira na maioria das vezes é uma coisa ruim.

Vivemos em um mundo onde a subjetividade é usada para as questões mais importantes de nossas vidas, a amizade, nossos amores, a política, a cultura e a convivência interpessoal. A objetividade é direcionada para desvios ou distrações, a maioria delas que são estúpidas enquanto objeto central de debate ou que mereça destaque.

Os puramente inteligentes tem uma tendência para encontrar as confluências das desarmonias (pobreza, desigualdade, conflitos) muito mais rápido do que os contextualmente inteligentes. A maioria dos autistas são puramente inteligentes, mas isso se dá especialmente mediante o atributo técnico. Isso quer dizer que eles são realmente bons para encontrar padrões em suas respectivas áreas de fixação intelectual, mas pode acontecer de que, esta capacidade, seja mais limitada para outros atributos. Ainda assim, isso não os desqualifica como puramente inteligentes.

O tipo mais importante dos puramente inteligentes é composto por sábios. O sábio é uma espécie de autista social, ou seja, é uma pessoa que exibe muitos traços autistas (que por sua vez se relacionam com os traços psicopáticos) como a capacidade de buscar padrões. Geralmente, os autistas são excepcionalmente bons para buscar padrões mecânicos, conceituais ou técnicos, ou seja, padrões de natureza não-social. Os psicopatas e os sociopatas são excepcionalmente bons para buscar padrões sociais, especialmente os padrões humanos de comportamento. Como eu disse em outro post, isto se relaciona com as habilidades do predador, que precisa compreender todas as características comportamentais de sua presa para que possa atacá-la de sópetão.

As habilidades autistas também podem ser relevantes para o meio social, mas geralmente o grupo é tão incapacitado para entender a rede de subjetividade que este meio consiste que apesar do potencial, eles raramente são capazes de trabalhar totalmente neste quesito, visto que suas naturezas neurológicas os tornam completamente avessos a este tipo de jogo. Entre manipular pessoas e objetos ou ideias, os autistas quase sempre fazem a segunda escolha.

Os sábios apresentam as duas habilidades, tanto a do autista quanto a do psicopata e é por isso que, pode-se dizer que este grupo possa ser considerado como de gênios da humanidade. Esta habilidade em transitar por meio de duas distintas porém muito parecidas habilidades os tornam aptos tanto para demonstrar excepcionalidade técnica e especializada, quanto em compreender mais do que a grande maioria, todo o jogo de mentiras, blefes e subjetividade que as sociedades e especialmente as civilizadas, tem sido construídas e que ainda vivenciam.

Ainda que sejam dotados de grande capacidade, os sábios também estão cronicamente mal adaptados em nossas sociedades, porque seus nichos de ocupação laboral que deveriam ser os locais de proeminência e liderança, neste exato momento, estão quase que completamente dominados por tipos psicopáticos. O lugar onde o objetivo é transformado em subjetivo e vice-versa, o psicopata é o mestre visto que este blefe ou manipulação da realidade, nada mais é do que a externalização cultural e moral de suas culturas neurológicas. Este ambiente é consideravelmente o oposto do mundo ideal para que os sábios possam governar e se adaptar. A luta pelo poder, infelizmente, tem sido consistentemente vencida pelos tipos psicopáticos porque muito mais do que a razão, é a agressividade que tem contribuído para fazer o jogo psicopata quase sempre o vencedor.

 

DE VOLTA À PATOLOGIZAÇÃO OFICIAL

 

Mesmo que alguns profissionais de saúde mental reconheçam os exageros significativos e ignorância que estão sendo sistematicamente cometidos, a vontade quase que irresistível de patologizar parece ser mais forte. No final das contas, me parece que é um padrão extremamente recorrente dentro do mundo obsessivo da normalização clínica da psiquiatria culpar totalmente o indivíduo quanto à sua incapacidade de funcionar contextualmente bem e desprezar o mundo ao redor. Aqui então, para finalizar, caberá a pergunta, são os autistas ou qualquer outro grupo neurodiverso não-deficiente, que não são capazes de se adaptar ao mundo e portanto às pessoas, ou são as pessoas, os neurocomuns, que não são capazes de se adaptar ao mundo e portanto às pessoas neurodiversas?

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2 responses to “Pessoas puramente inteligentes estão cronicamente mal adaptadas ao mundo em que vivemos.”

  1. Messias says :

    Cara, a questao toda pode talvez ser resumida no ponto que autistas, provavelmente, e de forma geral, nao conseguem fazer bem feito um trabalho. Se conseguissem, seriam sem duvida valorizados. Na hora de ganhar dinheiro, ninguem quer saber se o funcionario e’ preto, branco, mulher, gay, se o cara da dinheiro, o cara acha alguma coisa. Ate mesmo se nao for pra ganhar dinheiro, o autista teria um lugar em servicos secretos, digamos, como naquelas coisas de CIA de filme. Se isso nao acontece, de acordo com voce, entao e’ entendivel que autistas sejam vistos como doentes ou deficientes. O que importa para a sociedade nao e’ o potencial de uma pessoa, mas o que ela faz. Se autistas tem potencial para fazer coisas dificilimas mas nao fazem, do que adianta? Se, por outro lado, se comportam de uma maneira que gera transtorno e problema para os demais, por exemplo, quem sabe, cagando nas calcas como bebes, serao tratados como deficientes.

    • santoculto says :

      Messias,
      eu acho que é importante você se informar antes sobre os ‘autistas’. O termo autista inclusive é um pouco equivocado. A variação comportamental dentro do espectro desta condição é tão grande que não é possível de rotularmos como ”autistas”, esperando que todos serão mais ou menos iguais. Os autistas de fato, apresentam características similares entre si, porque do contrário, ninguém em sã consciência criaria uma denominação específica para este estilo de personalidade. No entanto, eles tendem a variar tanto a nível individual que é só parcialmente correto manter este rótulo.
      Como eu penso que deve se informar mais e melhor sobre o caso, eu vou tentar te mostrar resumidamente que, nossas sociedades como vc bem disse, foram criadas para subgrupos cognitivos que eu denomino de ”memorizadores superficiais”. Qualquer concurso público preza por este tipo de capacidade. O próprio nome diz, são bons para memorizar uma grande quantidade de informações mas fazem de maneira superficial. Eles o fazem pragmaticamente.
      Uma comparação, o autista estuda tal como se fosse comer. O estudo é em parte o seu alimento. Esta é uma realidade para os puramente inteligentes. A maioria das pessoas estudam com segundas, terceiras intenções, a finalidade não é aprender, é ganhar em cima disso. Este tipo de pensamento está completamente errado na minha opinião.
      A sua perspectiva é baseada na visão popular sobre o assunto. Uma pessoa que não usa conscientemente o seu conhecimento para lucrar em cima está errada, é deficiente porque não é funcional. Nós sabemos que, as pessoas mais inteligentes geralmente não são, as mais bonitas, as mais saudáveis ou mesmo as mais sociáveis. No entanto, nós as consideramos como ”normais” porque elas são úteis em nossa sociedade.
      Como eu falei no texto, os autistas não estudam visando ganhar dinheiro ou status, eles o fazem porque é um hobby, isso é uma coisa tão especial que realmente é completamente estúpido desprezar esta oportunidade bem como esta virtude.
      Vc não tem consciência de que está respirando neste momento, da mesma maneira, o autista médio não tem consciência de que está estudando e aprendendo, é uma coisa natural, sem segundas intenções. É uma espécie de nirvana da felicidade pra eles.
      Outra coisa, quando vc diz ”Se autistas tem potencial para fazer coisas dificilimas mas nao fazem, do que adianta?”
      Vc deve estar referindo aos savants, um grupo muito especial e que são considerados como uma condição neurológica separada dos autistas. Ainda que seja possível encontrar de 10 a 30% de talentos savants entre os autistas, ainda será uma minoria e mesmo assim, eles serão muito mais funcionais. O savant é um ilha de genialidade em um oceano de deficiência. O autista não.

      O potencial é extremamente importante e a maioria das autistas e das pessoas puramente inteligentes gostariam de poder se adaptar financeiramente neste mundo, bem como fazer aquilo que gostam. No entanto, nós vivemos em um mundo que eu chamo ”pyschopath run world”, em que os tipos mais agressivos e manipuladores sobem as posições mais importantes da sociedade. A origem de todas as decisões em nossas sociedades nascem justamente dos nichos hierárquicos mais importantes. Se a origem da decisão se dá de maneira torta, então a sua propagação já será aberrante.
      Tem um filme que se chama Trust de Hal Hartley, o mundo é assim. Um dos personagens principais é super dotado e tenta, em seu novo emprego, melhorar as condições do produto que a empresa produz…. mas, suas observações são mal vistas por seus chefes. Autistas e super dotados compartilham muitas características, honestidade, obsessão intelectual em assuntos ”específicos”. A maioria das pessoas, que são estúpidas, não querem tipos assim. Na verdade, a maioria das pessoas MESMO, sequer sabem reconhecer alguém que é puramente inteligente.

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