Teoria do quebra-cabeças ou da seleção indireta, para explicar a constante presença de personalidades extremas dentro das populações humanas

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Toda família tem um ‘louco’

 

Na atualidade um número alto de pessoas desenvolverão ”transtornos
mentais” ao longo de suas vidas. Algumas estimativas jogam este
número para 6% da população em um típico país ocidental
industrializado. As mesmas estimativas acreditam que até 25% da
população irão desenvolver alguma forma mais moderada de ”transtorno
mental” enquanto que até metade terá algum processo de ”interrupção
da normalidade” em algum momento específico. Estes indicadores podem
nos mostrar o que há de mais único na natureza humana. A relativa
fraqueza que nós apresentamos, são alguns dos efeitos colaterais mais
evidentes de nosso caminho singular como espécie que tem nos feito
superiores. Não somos os mais velozes, os mais ardilosos ou os maiores
do reino animal mas com certeza que somos os mais adaptáveis. A
adaptação necessita de inteligência e de diversidade genética para
funcionar. Espécies geneticamente homogêneas estão destinadas ao
posterior enfraquecimento coletivo tanto na capacidade de defesa
quanto com relação às próprias armas cravadas em seus genes. Quanto
mais específico e óbvio for o jogo de sobrevivência, mais frágil ele
progressivamente se tornará, tanto para predadores quanto para as
intempéries ambientais.
Diversos estudos sobre a relação seleção natural x transtornos mentais
tem demonstrado que ao menos em nosso passado evolutivo como espécie,
os genes que aumentam o risco de desenvolvimento de psicopatologias
foram prolíficos e provavelmente tiveram um papel benéfico fundamental
para o nosso sucesso na colonização de todos os continentes bem como
pela produção da cultura e das sociedades complexas. No entanto o
porquê da manutenção de uma grande incidência de transtornos mentais
na população continua a ser buscado visto que se no passado estas
pessoas com ”mentes diferentes” foram muito vantajosas para o grupo
por causa de suas habilidades incomuns, hoje em dia  mediante todas as
evidências ”diretas” ,essa realidade pode ter mudado
consideravelmente visto que
– as pessoas com transtornos mentais são mais predispostas a se
retirarem do convívio social
– estão em maior risco de pobreza (mas também para ocupar profissões
de proeminência social,cultural, científica ou política)
– alguns tipos específicos de ‘transtornos’ como a personalidade
psicopática, relacionam-se à elevados índices de criminalidade
– pessoas com transtorno mental tendem a ter menos filhos
O último dado contribui significativamente para forçar os
pesquisadores a buscar alternativas indiretas para explicar a presença
universal destas condições.

A minha teoria em relação à presença constante dos chamados
transtornos mentais nas populações humanas não parte especificamente
dos padrões de acasalamento modernos dos seres humanos, visto que
especialmente nas sociedades industriais, estes genes ( ou ao menos o
fenótipo inteiro ou combinação dos genes que resultam na expressão da
condição) parecem estar sempre sendo selecionados para fora da
piscina. Ela parte do fragmento encontrado nos estudos que mostra que
no nosso passado evolutivo estes genes não só foram foram abundantes
mas também foram fortemente selecionados. Mesmo na atualidade, alguns
genes para a TDAH apresentam seleção positiva assim como certos genes
para a esquizofrenia e para o autismo. No entanto, eu acredito que a
grande presença  destas condições se dê justamente por causa dos
mecanismos positivos de seleção de outrora que tornaram os seus genes,
amplamente distribuídos pelas populações humanas.  Também se especula
se a elevada presença de algumas destas condições em algumas
populações esteja diretamente relacionada com processos adaptativos
como no caso dos ameríndios, onde o percentual de pessoas com os genes
para o TDAH é superior a 70%. A TDAH segundo Harpending e Cochran
apareceu durante o período de migração do homo sapiens da África em
direção aos outros continentes. O continente mais distante da África,
seguindo a rota terrestre, é justamente o continente americano.
Acredita-se que a manifestação de TDAH em números consideráveis entre
os ameríndios seja o resultado direto da migração de ”pessoas de alto
risco” da Ásia para as Américas.
No mais, muitos genes presentes nos seres humanos e que não oferecem
grandes vantagens individuais ou mesmo coletivas, são muito bons
quando não estão aglutinados e portanto formando o fenótipo inteiro de
expressão genética. Esta é a explicação mais lógica para entender a
manutenção de condições graves como a esquizofrenia, que confere ao
portador-cheio do fenótipo, grandes problemas de adaptabilidade,
especialmente nas sociedades modernas. No entanto, alguns traços como
a capacidade de imaginação e alguns componentes importantes da
criatividade, encontram-se presentes no ”repositório genético da
esquizofrenia”. Se os portadores dos fenótipos inteiros destas
condições se reproduzem muito menos, em média até 30% menos que os
pares ”normais”, então criou-se a ideia de que ao menos os parentes
diretos e indiretos destes, que são os portadores de alguns genes das
condições, seriam como medida compensatória, mais socialmente
‘férteis’ que os pares sem histórico familiar de psicopatologia. Mais
uma vez, a teoria não parece ter vingado, ou ainda existem poucas
conclusões concretas sobre esta possibilidade. No entanto, sabe-se que
mesmo não sendo portadora-cheia do fenótipo por exemplo para a
esquizofrenia, a pessoa com uma variação menos extrema como a
esquizotípia, também podem não ser eficazes na capacidade de
acasalamento e reprodução, visto que tendem a serem considerados como
”estranhas” pela maior parte da população ”normal”. O estigma que
os tipos outliers, beneficiados por alguns genes mutantes destas
condições, tenderá a resultar na diminuição considerável dos mesmos em
conviver socialmente e consequentemente em possibilidades para a
reprodução.
Isto necessariamente não significará que todas as condições tenderão a
exibir estes problemas ‘adaptativos’.

Diversidade genética diretamente relacionada com psicopatologias

Se os genes que predispõe às psicopatologias foram abundantes no
início da humanidade então poderíamos concluir que estes se tornaram
‘fixos’ entre nós e são os grandes responsáveis pela criação de nossa
natureza complexa. Como resultado, não é necessário a seleção direta
dos genes para que eles que se manifestem, visto que se não a maioria,
todo o ser humano carrega consigo alguma variação dos mesmos. O que
importa aqui não é valor quantitativo dos acasalamentos mas
qualitativo.
Uma recente pesquisa sugere que as pessoas mais geneticamente
parecidas ou com fenótipos comportamentais mais parecidos tendem a
formarem mais amizades entre si do que em relação a grupos que lhes
são ‘pessoalmente’ distintos. O que vemos cotidianamente é o
aparecimento de grupos tribais urbanos em que alguns traços globais
como personalidade e inteligência são fortes preditores para a
aceitação. Se algumas pessoas com determinados traços de personalidade
podem se sentir atraídas por uma determinada gama de estilos musicais
ou de comportamento então o mesmo pode acontecer com àquelas com
certas suscetibilidade de condições. Mas como as
”psicopatologias” se manifestam se não existem mecanismos positivos
diretos de seleção??
Além da própria diversidade genética humana, diretamente provocada
pela forte seleção destas condições no início da humanidade, os
mecanismos sociais de acasalamento por aglutinação de fenótipos
semelhantes pode nos indicar que determinados grupos de indivíduos,
portadores de alguns genes dos ”transtornos mentais” podem se sentir
atraídos uns pelos outros, criando uma das condições necessárias tanto
para a expressão de todos os fenótipos, como também de frações dos
mesmos. Este processo pode ser como no caso de quebra cabeças, em que
uma pessoa com algumas peças combina com outra pessoa, que tem as
outras peças necessárias para completá-lo. Outra muito provável
condição para a manifestação destas condições relaciona-se menos a
fatores genéticos ou diretamente genéticos e mais a fatores orgânicos.
Sabe-se que quanto maior a idade da mãe, maiores são as chances da
criança nascer com estes tipos de mutações. Fatores ambientais também
podem provocar um ambiente artificialmente semelhante, ocasionando a
manifestação do fenótipo cheio e portanto no seu tipo mais extremo.
No entanto, eu acredito que, se muitas mães mais velhas podem ter
filhos ”saudáveis”, então, além da idade outros fatores como
suscetibilidades genéticas e ou orgânicas podem favorecer o
aparecimento da expressão destas condições em suas proles. Uma mãe que
em condições relativamente normais, tanto de idade quanto de ambiente,
tem uma criança com autismo, muito provavelmente já apresenta uma boa
quantidade de genes que predispõe ao seu aparecimento bem como fatores
orgânicos como ter maiores taxas de testosterona que seus pares de
mesmo sexo. (além do casamento genético com o seu par, como sugeri
acima). Sabe-se que a maioria das mães de autistas tem maiores taxas
de testosterona do que a média. O aumento do testosterona pode
provocar novas mutações que resultam na suscetibilidade para ter ao
menos um dos filhos com a condição. Mães com alto testosterona já
podem apresentar estas mutações naturalmente, mesmo em idade jovem e
mais apta para ter uma gravidez ”normal”. Mães com níveis um pouco
mais altos de testosterona podem estar mais predispostas a terem
filhos autistas do que àquelas com níveis mais baixos. Condições
ambientais podem aumentar a quantidade de testosterona como resposta à
presença de toxinas, e isto pode ocasionar o aparecimento do autismo
clássico, que ao contrário da síndrome de asperger, é bem mais
epigenético e complexo e não oferece nenhuma vantagem tanto à
população afetada quanto para o coletivo, talvez alguma tentativa de
interpretação subjetiva de alguns traços.
Portanto, a diversidade genética humana é resultado direto da seleção
de vários traços, inclusive e especialmente os tipos extremos, que
favoreceu à adaptação. Genes que favorecem ao comportamento de risco e
ousadia, parecem relacionar-se com TDAH, genes que favorecem à
capacidade imaginativa e portanto de desenvolver cultura, religião e
regras sociais parecem relacionar-se à esquizofrenia e também à uma
maior gama de espectros destas condições, genes que favorecem às
características cognitivas que resultaram no desenvolvimento
tecnológico e na ciência parecem relacionar-se ao autismo, capacidade
de adaptação em ambientes temperados parece relacionar-se ao espectro
dos ”transtornos” de humor como bipolaridade e depressão. Todos eles
são manifestações adaptativas extremas. Todos eles apresentam
variações mediante uma distribuição contínua de traços, onde as suas
manifestações mais leves podem conferir grandes vantagens cognitivas,
mesmo ao nível de gênio (onde acredita-se que os verdadeiros gênios
são ‘construídos’). A presença destes genes no nosso passado,
reverbera em nosso presente e no nosso futuro, onde todos nós
apresentamos ao menos algum traço de cada variação e onde os
mecanismos sexuais e culturais de seleção agora predominantes em
nossas sociedades complexas, continuarão a selecionar ao menos um traço
de condição tornando as suas manifestações de ”fenótipo-cheio” uma
constante a nível mundial.. Por razões de qualidade de preferência nos
padrões de acasalamento, esta teoria fundamenta que a manutenção das
variações mais extremas da cognição e personalidade humanas se dê
justamente pela atração e posterior procriação destes tipos resultando
no ”encaixe” do quebra cabeças de genes e não necessariamente em
acasalamentos diretos que resultem em maior número de filhos. Também
não é eliminado a co-possibilidade de explicação dos níveis dos
hormônios sexuais como importantes responsáveis pela variação humana,
portanto pela sobreposição de espectros de traços, uma explicação
biológica paralela à teoria de acasalamento indireto. A variação
humana também pode ser baseado segundo um espectro na distribuição de
níveis de hormônios sexuais, onde os grupos mais extremos tenderão a
produzir fenótipos de igual natureza.

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